7.3.05

nua II

Gosto do sal colado à pele. Gosto de casas e tectos e planos e pátios e água. Gosto do som da água. De me demorar num abraço. Gosto do ser e da palavra eterno. Gosto do sabor a sal. Gosto de brincar. da Galé e de Marvão. Gosto de pessoas queridas, e de pessoas com máscaras de más quando não são: e de descobrir isso, de descobrir sorrisos lá dentro. Gosto do bairro alto, do castelo e de alfama. Gosto de teatros. Gosto de camarins e gosto do nervoso de entrar em palco. Nos outros e em mim. Gosto de ballet: das minhas pontas, das musicas que ainda hoje me trazem os passos silênciosos em volta de si. gosto das recordações. E da memória. Gosto do chapitô e de jantar no restô. Gosto de ter saudades. Gosto de ter tempo. Não gosto de andar à toa. Gosto de me perder. Gosto de pintar. Gosto de desafios. Não gosto que saibam tudo de mim. Não gosto de xila. Gosto de sintra no inverno e da lagoa azul. Não gosto de manga. Não gosto que me controlem. Gosto da liberdade limitada quando finjo que os limites não existem. Gosto do Matisse e do Degas. Gosto da Viera da Silva e do Pullock. Gosto de arte e da criar-te.Gosto do Porto. Não gosto quando me perco no Porto. Não gosto de vodka. Não gosto de gin tónico. Gosto de cerveja gelada e de vinho tinto meio morno. Gosto de coca-cola, ice tea green e gostava de café. Gosto do Rui Chafes. Gosto de dormir na praia e acordar torrada. Gosto de receber cartas e emails que não sejam forwards. Gosto de timing e de tê-lo. Gosto de piadas secas (as “piadas ribeirinhas”). Gosto do prédio amarelo. Gosto de tascas e de évora. Gosto dos alentejanos. Gosto do "nosso" clube de fãs da Mafalda. Gosto de planícies e das estrelas do alentejo. Gosto da Ju a dar ordens. Gosto de caipirinha. Gosto do pico e de ter subido lá acima. Gosto da Mafalda Veiga. Gosto de ter amigos de muito tempo. Não gosto de música pimba. Gosto de conduzir. Gosto de viagens sem destino. Gosto quando está frio la fora e o carro está quentinho. Não gosto de bichos de prata. Gosto de acampar. Gosto da essência das coisas. Só às vezes é que gosto de exageros. Não gosto que haja fome. Nem doenças. Não gosto de ter de mentir. Gosto das sombras dos passos no chão. Gosto de chão. Gosto das coisas boas da Té, e de todas as coisas boas que a Mafalda me ensinou. Não gosto de más noticias: nem de telefonemas com más noticias. Gosto de guitarras e gostava de saber tocar. Não gosto de depender do telemovel. Gosto de ser tocada por quem gosto, e de mãos. Gosto de dar prazer aos outros. Gosto de festinhas na cabeça. Gosto de massagens. Gosto que a Té ainda me esteja a dever umas. Não gosto de violações a mulheres e a crianças. Gosto do gato fedorento. Gosto do Jorge Reis-Sá e da Rita Ferro Rodrigues a escreverem. Gosto das piadas da Janica. Não gosto de fazer directas quando tenho sono. Gosto de dormir. Não gosto de depender da sorte. Gosto da Ella Fitzgerald. Não gosto dos piropos dos homens das obras, a não ser que sejam especialmente trabalhados para terem piada. Não gosto de velhos rebarbados. Gosto da Amelie e das cores da Amelie. Gosto do dramatismo do José Luis Peixoto. Gosto do chile e gostava de pisar aquela terra. Gosto do Ché. Gosto da pureza do budismo. do zen. Não gosto de pensar no futuro das crianças deficientes. Não gosto do cancro nem da morte que lhe está associada. Gosto do momento. Não gosto da capacidade que um momento tem de fazer o futuro incerto e gosto da ideia do futuro incerto. Gosto da Diana e da Rita e da Inês e da Inês e da Xinho e do Filipe e do Gravito e da Sofia e da Martinha e do Erick e dos outros que são daqui e que gosto. Gosto da minha terra e de ser ao pé do mar. Gosto da minha turma deste ano: e de ter conhecido o Gonçalo (gosto de pessoas sinceras) e o Pedro e o Pedro e a Ana e a aasul. Gosto da aasul. Gosto das orações da aasul e dos velhinhos. Gosto de voluntariado e de gente que faz voluntariado. Gosto da Maria a cantar e tenho saudades. Não gosto de despedidas para sempre. Gosto do João desafinado a cantar a menina das tranças pretas. Gosto que o João saiba tudo e não gosto que o João saiba tudo. Não gosto de saber que alguém não teve infância. Gosto da palavra sempre. Gosto da Maria Bethania em maricotinha ao vivo. Gosto dos italianos. Gosto do Jamiroquai. Não gosto de ainda não ter encontrado um chinês bonito. Gosto de malucos. Gosto da Rita Lee, da Fernanda Young, da Vera Mantero, dos projectos do Dean e de todas as pessoas que, diferentes, fazem avançar o mundo. Gosto da diferença. Gosto de beijos. de desejos. Gosto da parte secreta de tudo. Mas não gosto quando me contam aqueles segredos terriveis e perturbadores. Gosto de ouvir, aprender e aconselhar. Gosto de ser amiga. Gosto que confiem em mim. Gosto de ajudar. Não gosto de extraterrestres verdes com um olho. (Se tiverem dois olhos ainda escapa...) Gosto do Souto Moura. Gosto de estórias e memórias de quem já viveu algumas coisas. Gosto de pessoas frias que são quentes por dentro. Gosto do cheiro dos bébés, da praia, do chocolate quente, dos chás, do herbal essences, do light blue, dos morangos, da manha, de roupa nova, das avós, do café, das tintas acrílicas, da felicidade, da vida. Não gosto do cheiro da gasolina, dos cigarros dos outros, do queijo da serra, do whiskey, do ferro a soldar, da morcela. (esta ultima frase deixou-me mal disposta...) Gosto do Sporting. Não gosto do Benfica. Gosto do calor do sul de espanha. Gosto do anoitecer. Gosto de Barcelona. Não gosto de Sashimi nem de sushi: não gosto de peixe cru. Gosto de quente e de pele. Gosto do Ethan Hawk e da Julie Delpy em before sunrise e before sunset: gosto de imaginar que aquilo pode acontecer, gosto do perfil dos personagens e da banalidade simples da vida, gosto de me descobrir na "Celine" mas não gosto de descobrir com ela o quanto também eu sou neurótica e quase incapaz de me entregar. Gosto de misticismo. Gosto de ter medo e não gosto de ter medo. ele existe. Gosto de gritar, faz bem. Gosto de ouvir quando todos falam. e ainda não gosto de falar quando todos ouvem, fico com vergonha. Gosto de tribos. Gosto da India e de ter um primo "maluco" que mora lá: de não ser a ovelha mais negra da familia. Não gosto de droga que estraga familias. Gosto do meu padrinho. Não gosto que ele more longe. Gosto de pensar na ideia de um inter-rail, de um ano em voluntariado fora de portugal, do mundo ser a dois passos de casa. Gosto de ecologia e de renovar, reconstruir (re...)... Não gosto de hipocrisia. Gosto de competência. De vontade. De energia cinética. Não gosto quando me subestimam. Gosto de ter a certeza do que sou. Não gosto de ser preguiçosa. Gosto da meia lua em forma de queijo. Gosto de quem me está a ler porque tem paciência. Não gosto quando espero respostas e as pessoas não falam, não respondem, não são. Gosto do silêncio. Não gosto do silêncio incomodativo entre amizades. Gosto que a Margarida esteja a acabar medicina. Gosto do mar e da Sophia. Gosto de estrada. Gosto de me rir. Não gosto do meu sorriso. Gosto de luz quente amarela torrada. Da luz de Lisboa nas coisas. Não gosto de estar branca. Não gosto quando não se lembram do meu nome. Gosto dos meus amigos felizes. Gosto da luz que a arquitectura é capaz de fazer. Gosto do que ainda não existe. de pensar que ainda posso fazer uma casa, escrever um livro, pintar muitos quadros. Gosto de pensar que posso mudar o mundo. Não gosto de me sentir inutil. Gosto de ganhar dinheiro mas gosto ainda mais de gasta-lo. Gosto da Laurinda Alves porque nunca li nada dela que não tivesse gostado. Gosto dos Açores e da Ana Moitinho. Do Pedro e da Cuca. Gosto de sentir o vento quente de braços abertos. Gosto de pessoas divertidas. Gosto de puffs espalhados pelo chão e de redes brasileiras. Gosto de desenhar, pessoas e gestos, ambientes. Gosto de música. e da lua. de relva. de areia, areia quente a queimar os pés. Gosto que me emocionem e que me façam mexer os sentidos, remexer a vida, ir ao fundo. Gosto que a vida seja para sempre. e de me despir aqui, inteira.

nua

Gosto que a palavra saudade só exista em português. Gosto de fotografia. E da fotografia de Tom Jobim. Gosto de cappucino. Não gosto de dores. nem de doenças. Gosto de gente. Não gosto de gente a sofrer. Gosto de cores. Gosto de preto. E de branco. De azul e do Blue do Yves Klein. Gosto da Adriana Calcanhotto que inventou esta maneira de nos autobiografarmos. Não gosto de imitar, mas às vezes tem de ser porque só pode ser assim. Gosto de escrever. Gosto de ler. Gosto dos meus amigos e de chocolate. Gosto de pipocas e que chamem pipoca. Não gosto de limitar. Gosto de limites. Gosto de riscos e riscos. Gosto dos afectos. Das saudades. Da ternura. Do amor, o incondicional. Não gosto da solidão por imposição, gosto de estar só. Não gosto da solidão nos olhos dos velhinhos. Não gosto do preconceito nem das preocupações, não gosto do racismo nem da falta de tempo. Gosto do tempo devagar e quente. Dos dias cor de laranja quando o sol se vai embora. Gosto do frio com sol na marginal. E da chuva de braga. Das cores que sobram à passagem da vida lá na quinta. Gosto da Guida e da Francisca: quando a Francisca canta o nome dela. E quando se adivinha a emoção. Gosto do amarelo torrado e do verde que só há lá. Gosto do amarelo que fica em Lisboa. E de lhe chamar a minha cidade amarela. Gosto de Lisboa de Mil Amores. Do Lume, da Llovizna, do Acrobata e de Una Casa. Não gosto dos morangos com açucar. Gosto do verde dos sapos. Não gosto do bom gosto, que é como quem diz gosto das Senhas da Adriana. Gosto do Jack Johnson e do John Mayer, da Norah Jones, de vozes quentes. Gosto de madeira e de pedra. Gosto do Rodrigo Leão e dos The Gift. Do Bento. Gosto do banho a escaldar. Gosto de fumar. Não gosto que fumar faça mal. Gosto do senhor chinês que inventou a escrita. Não gosto que os chineses inventem tudo e não nos deixem nada para inventar. Não gosto que eles sejam tantos. Gosto do Japão. Gosto do Tadao Ando. do respeito que os Japoneses têm pela luz. Gosto de viajar: mesmo que seja só em pensamento. Gosto de imaginar o sol a dobrar a esquina. Gosto de fazer filmes enquanto observo algum desconhecido, de supor a sua vida. Gosto de olhar as pessoas. Gosto de começar um pensamento com “e se...”. Gosto dos olhos bonitos, e dos feios. Gosto do olhar expressivo e pestanas grandes. Gosto de sorrisos. Não gosto de sorrisos falsos. Gosto do alcatruz. Não gosto que de repente toda a gente conheça o nosso cantinho cá da terra. Gosto do Tibete e do Dalai Lama. Gosto de yôga. Não gosto de invasões. Não gosto quando dou por mim a ser má pessoa. Gosto de mudar todos os dias. Não gosto de rotina. Gosto de começar um novo dia diferente. Gosto de crianças: da sua capacidade de serem inteiras. Gosto do Peter Zumthor, e do Siza. Gosto de reiki e de conseguir fazê-lo. Não gosto quando não dá certo. Gosto do mestre. Gosto de gente boa. Não gosto de desistir das pessoas. Gosto de estar perto. Gosto do Dr.Celso e da Lúcia. Gosto de saber que a nossa mente é capaz de tudo. Não gosto de ser esmagada nas discotecas. Não gosto de gente inconsequente, de gente grande que diz disparates sem pensar. Não gosto quando me magoam e não gosto de mentiras. Gosto de confiar e acreditar. Gosto de gostar e não gosto de não gostar. Gosto de ficar deitada no chão a ouvir música. E de acabar uma maquete que ficou boa. Gosto de ser surpreendida. De me surpreender. Gosto quando me fazem surpresas. E não gosto quando me fazem surpresas. Gosto de conhecer pessoas e os seus pensamentos. Gosto de mistérios e de me envolver. Gosto de descobertas e de aventuras- que é como diz o meu horoscopo. Gosto do horoscopo porque só diz coisas boas. Gosto do Pedro Granger porque ele não me liga nenhuma. Acabo de descobrir que não gosto quando me ligam demasiado. Gosto quando me “picam”. Gosto de não ser capaz de tirar os posters do Brad Pitt do armário com medo de crecer. Gosto de meias. Gosto das meias coloridas que a Jana me deu, e da maneira como ela pinta os dias às cores e às fadas. Gosto de abraços. Não gosto de palmadinhas nas costas. Não gosto de abelhas porque elas picam toda a gente sem razão. Gosto de borboletas e de cães, lá ao fundo. Gosto de amarelo. Gosto do Caetano. Gosto de gostar de todos os lugares. Do menino do rio. Não gosto do barulho das melgas e das moscas e das abelhas a aproximarem-se do ouvido: zzzzzZZ. Gosto do brasil e nunca lá fui. Gosto de N.Y. e também nunca lá fui. Gosto de rugas. Gosto das rugas nas fotografias a p&b. Gosto de ter boas notas mas não gosto de ser a melhor. Gosto que os outros tenham boas notas. Gosto de competição para avançar. Gosto de jogar e não gosto de perder. Gosto de comida vegetariana. E de ter deixado de comer carne há tantos anos. Gosto de me demorar quando gosto. Gosto do manahmanah. Não gosto que se chateiem comigo. Não gosto que me chateiem. Não gosto de ver o meu avô triste. E não gostava quando via os meus avós separados por uma cama de hospital, muito menos agora, pela morte. Gosto da vida. Gosto de viver. Gosto das cores dos dias. E do silêncio da noite. Do primeiro azul que traz a cidade na claridade. da estrela da manha. Gosto de brigadeiros. Não gosto de queijo, só o das pizzas e das tostas. Gosto de igrejas. Da imensidão. Não gosto de algumas coisas que alguns padres inventaram por cima da religião católica. Gosto de Jesus que está cá dentro. Gosto que a D. Maria passe a vida feliz, mesmo na solidão dos dias. Gosto da minha familia pequenina: gosto quando o meu pai diz disparates e nos rimos porque sim, gosto quando o meu irmão é irmão, quando a minha mãe não precisa dizer nada. Não gosto quando discutem, nem de pensar na inevitável separação a acontecer. Não gosto de cair em pensamentos mórbidos, mas acontecem: de me imaginar a cair quando estou la em cima de alguma coisa, ou outra pessoa qualquer, de imaginar a vida a ser morte ou de imaginar coisas a correrem mal. Gosto quando esses mesmos pensamentos são cómicos, quando imagino alguém a tropeçar, ou um político que de repente diz as verdades, um cão que fala ou uma beata pronta para a noite. Não gosto do conceito dinheiro. Gosto da paz. Gosto de tocar na loucura e reconhece-la proxima. Gosto da Maryland a cantar fado. e as outras musicas do seu reportório. Gosto de chocapic. Gosto de pessoas interessadas. Gosto de música. de surf. de correr para lugar nenhum.

Gosto que a palavra saudade só exista em português.

dias

hoje estou triste. comecei o dia por me lembrar da minha avó, a missa, o meu avô a chorar baixinho, o almoço com uma cadeira a mais. à tarde, visitas que me lembraram dela, como era boazinha e como queria ajudar o mundo e como eu morro de saudades do seu colo. não fico triste triste mas fico com uma vontade de um abraço que só podia ser dela, com vontade de a ver na cadeira que ainda a espera, fica um vazio de saudades que não acabam, só se adormecem nas lagrimas presas ao sono, e tenho ainda tanto trabalho pela frente antes de ir dormir. dias...

6.3.05

Malucooos

Hino Dos Malucos

Nós, os malucos, vamos lutar

Pra nesse estado continuar
Nunca sensatos nem condizentes
Mas parecemos supercontentes
Nossos neurônios são esquisitos
Por isso estamos sempre aflitos
Vamos incertos
Pelo caminho
Nos comportando estranhos no ninho
Quando a solução se encontra, um maluco é do contra
Mas se vai por lado errado, um maluco vai do lado

Malucos, a nossa vida é dar bandeira
ligando a luz da cabeceira,
se a água pinga na torneira
Malucos, a nossa luta é abstrata
já que afundamos a fragata,
mas temos medo de barata

Nós, os malucos, temos um lema
Tudo na vida é um problema
Mas nunca tente nos acalmar
Pois um maluco pode surtar
Os nossos planos são absurdos
Tipo gritar no ouvido dos surdos
Mas todo mundo que é genial
Nunca é descrito como normal
Quando o papo se esgota,
um maluco é poliglota
Mas se todo mundo grita,
um maluco se irrita

Malucos, somos iguais a diferença
e todos temos uma crença:
seguir a lei jamais compensa
Malucos, somos a mola desse mundo,
mas nunca iremos muito a fundo
nesse dilema tão profundo



Rita Lee/ Fernanda Young/ Alexandre Machado

5.3.05

quem sabe, sabe

"Há dois tipos de pessoas: as que fazem as coisas, e as que ficam com os louros. Procure ficar no primeiro grupo, há muito menos competição por lá."

Indira Ghandi

cores



independentemente do que vem
depois do túnel,
torná-lo colorido é a percepção
mais feliz da vida.

4.3.05

Marco Paulo, o Pensador

"Citemos Marco Paulo, em recente entrevista a uma revista popular: «O pimba veio abandalhar a música». Surpreendente afirmação, vinda de quem vem. Dir-se-á: mas quem é Marco Paulo para dizer semelhante coisa, ele que é o sumo pontíficie do pimba? Pois Marco Paulo disse-o precisamente por ser o sumo pontíficie do pimba. Estranhos tempos, estes em que vivemos.Na recente história da música popular portuguesa, Marco Paulo é um nome que se cumpriu, e cumpriu-se à custa de um cioso jogo de cintura, inimitável mas canónico, distante mas tão próximo, primário mas harmonioso. A sua história é heróica: vindo do Portugal profundo, subiu aos holofotes, foi romântico enquanto era preciso ser romântico (uma espécie de Tony de Matos das donas-de-casa dos anos 80), Herman consagrou-o (Serafim é nome de anjo e Saudade é nome de sentimento), a televisão deu-lhe um espaço nobre, Marco em si condensou uma luta cancerosa comum a tantos que nos são queridos e venceu-a, e hoje possui uma imagem impoluta. Ora, por causa disto tudo, que será heróico para quem o quiser, mas não certamente para outros, Marco Paulo dá-se ao direito de teorizar sobre o pimba. É, portanto, um discurso meta-pimba. Essa é a síntese fulcral do estado e significado da música pimba: auferiu a si mesma uma condição transcendental. Marco Paulo tornou-se num opinion-maker paradoxal. O pimba ataca o pimba, ou seja, o pimba tem uma opinião de não-pimba, colocando-se do lado dos que pensam, por oposição aos que desconfiam de quem pensa. Onde é que, afinal, está exactamente Marco Paulo? Ele está no meio de nós."


texto de João MacDonald, na revista 365


ps- ainda no mundo do fernando alvim encontrei um jogo interessante... em http://www.fernandoalvim.com/CarlosCastroInvaders.html

3.3.05

Piada Ribeirinha

"Trás-os-Montes diz ao Minho que vai chegar tarde, pois tem uma reunião.
Pergunta o Minho:
- Ok, mas tens Chaves?
- Claro- responde Tras-os-Montes - claro que tenho Chaves.
Não? "

estrada...


fotografia bruno espadana


-Estamos perdidos?
-Não. estamos só à procura do caminho certo!


...vida

2.3.05

os melhores amigos do mundo!


fotografia castelo de vide, 2004


... quando era pequenina, entre as coisas de criança, entre ser bailarina e policia, médica e pintora, bombeira e jornalista, queria ter uma profissão que ainda hoje não sei qual é: queria fazer um mundo melhor, como se na altura soubesse o que isso era, melhor que hoje, tão simples a simples forma de ser criança. acreditava que um dia ia conseguir ajudar os pobrezinhos todos, acho que porque me fazia uma confusão dos diabos "porque é que eles não iam levantar dinheiro, se aquela maquina dava sempre dinheiro a toda a gente!", sonhava com os meninos que estavam na guerra, sonhava que os levava a passar ferias a todos, ferias da guerra, porque estavam lá e não queriam e choravam e tinham fome (ainda têm, não os mesmos, talvez os filhos, dos mesmos), acreditava, não sei bem porquê, que um dia, um dia, ia conseguir ser alguém, alguém que ia ajudar, (sempre "me achei")! como se pudesse mudar o mundo com estas duas mãozinhas...
hoje continuo a acreditar nesse sonho "de criança". continuo a não saber qual é a profissão, mas começo a acreditar que se chama "ser" humano e que é trabalho a tempo inteiro. que se chama existir. como amigo, desconhecido, "inimigo", perto, longe, perto, perto, perto dos outros! hoje tenho dias em que consigo fazer o trabalho que sonhei a toda a hora. cresci, sei la como. devo-o, claro, pela força que (re)carrego nos seus sorrisos, como tantos outros sonhos e saltos, aos melhores amigos do mundo, os que tenho nos abraços que levo comigo em toda a parte. quando construo sonhos reais ou imaginários, quando sou útil e ser humano, quando sou pequenina à procura do que sonhei ainda mais pequenina, em toda a parte em todo o tempo. os melhores amigos do mundo!

um abraço para quem são, Pipa

ps- hoje sei, também, e também por voces, que um sorriso é muitas vezes mais importante que todo o dinheiro e tantas palavras, quando queremos ser assim, "humanos" a tempo inteiro...

28.2.05

no sótão de nós

"(...) a razão possui uma natureza escrupulosa e laboriosa e esforça-se sempre por encher de causas e efeitos todos os mistérios com que depara, ao contrário da imaginação ("a louca da casa", como lhe chamava Santa Teresa de Jesus) que é pura desmesura e deslumbrante caos. (...) essa louca: às vezes fascinante e às vezes vezes furiosa, que mora lá no sótão."

Rosa Montero in A Louca da Casa


a imaginação é, então, aquela louca que mora lá em cima no sótão de nós. adoro-a fascinante: quando desce as escadas, aparece em flashes fugazes e torna a vida tão mais clara. quando subo as escadas e fico com ela, são os dias mais loucos, mais transcendentes, os melhores dias, os dias em que a vida e o sonho são iguais (como nas crianças), chamem-me louca como a ela, o que quiserem, são esses os melhores dias dos dias mais felizes da vida. (coisas de "artista"!) :)

faltou

faltou antes do anoitecer. para mim, foi um dos melhores filmes do ano: claro que aquele formato nunca poderia ganhar muitos óscares nem muito menos os de grande impacto, mas... faltou, senti falta de lhe ouvir o nome entre os melhores. seria merecido. mai nada!

27.2.05

Blue(s)


Yves Klein, Monochromatic Blue, 1956
relaxante.
passividade, quietude, introspecção, melancolia, tristeza, mar, céu e sede.
verdade, espiritualidade e sabedoria.

esperança, piedade, virtude espiritual e pacífica. azul.

cor santa.
mágico, de noite sonhos nossos e dia.
limite.
azul.

Dizer adeus sem dar por isso




"Um dia, irás perceber que gostar de alguém, em segredo, é (simplesmente) idealizar; desejar que uma ideia venha até nós sem fazermos nada para ir ao seu encontro.

Um dia irás perceber que idealizar é dizer adeus sem dar por isso. "



Eduardo Sá

26.2.05

e por falar em afectos...

Fazes hoje 25 anos. (o tempo voa!!) de vez em quando ainda te culpo por não ter tido uma infância totalmente de menina como seria suposto... sabias? não que me importe, mas sinto que me faltou, por exemplo, usar aqueles vestidinhos que a avó e a tia me ofereciam em todos os aniversários e eu como unica neta e sobrinha e como maior desgosto tanto imbirrava em usar. a mãe? a mãe já sabia de cor o meu não gosto por vestidos e saias, nem valia a pena sequer tentar vestir-me dessa maneira, eu fazia birra, tirava, envergava umas calças ou uns calções e lá andava no teu rasto, sempre atrás de ti, seguia-te as pegadas e os gostos mais estranhos.
não tens culpa, costuma acontecer, quando se tem irmãos mais velhos, as raparigas sairem "marias rapazes" (lá está o maria como nome tipico popularusco...), as irmãs mais novas gostarem de jogar à bola, de brincar com os carrinhos, com os bonequinhos de futebol, (sim, esses que vêm nos bolos de anos, iguais aos que o pai trazia sempre da ribeiro, assim como os do subutteo (era assim que se chamava? qualquer coisa do genero...)), com mega construções de playmobile que se montavam naqueles dias em que a unica preocupação era essa: montar a construção de playmobile- para quê? não sabíamos, mas montávamos sem nunca acabar, e eram mais ou menos assim os nossos dias. quais bonequinhas, quais vestidinhos, quais barbiezinhas, quais quê! (por acaso tive uma barbie e um ken, mas porque adorava as casinhas deles, construir, montar, desmontar, cortar o cabelo à senhora... :) ) enfim, sempre fui "fresca", que era como diziam quando fazia algum disparate.- porquê fresca? não sei.
tu sempre foste mais calminho, nada de "frescuras"... a mãe dizia que sempre quis ter um casal, pelo menos, e que o filho mais velho fosse rapaz, depois rapariga: para que o irmão mais velho cuidasse da irmã, a levasse a sair (sabes uma coisa? a mãe não adivinha que esse dia nunca vai acontecer, os irmãos nunca gostam de "sair" com as irmãs mais novas...temos de lhe dizer que não deu certo essa parte), queria um rapaz que protegesse a irmã contra os maus! assim foi, sempre gostei de dizer que tinha "um irmão mais velho", que era para os meus amiguinhos como uma ameaça feroz que eu utilizava em ultimo recurso se me chateassem muito, até te verem pequenino e magrinho com essa cara de santinho que tens ate hoje, desculpa, mas realmente não metias muito medo...:)
Quando dormíamos no mesmo quarto, eras a minha arma contra os papões, acho que por isso nunca tive qualquer medo desses monstros do escuro verdes e com cheiro a alho que ameaçam as crianças. erámos cumplices das nossas noites à conversa, ou das discussões que só se calavam no sono. das risotas e "tramoias". ficou vazio quando fui dormir sozinha, sentia a tua falta, do teu respirar barulhento e das tuas coisas no espaço de nós. ainda nos sinto cumplices, pequeninos: as vezes vejo nos olhos da mãe nós pequeninos, bebés, pequeninos, a brincar nos dias de brincar, ou a dormir no mesmo quarto, em camas pequeninas, e brinquedos por todo o lado.
Hoje sinto-te grande e vejo-te ainda nas nossas cumplicidades, todas. as de irmãos. desde sempre corremos paralelos- gosto-te tanto por isso. e sei, porque a mãe ja me contou, que morrias de ciumes meus quando nasci, também deve ser uma coisa normal, descansa. Um irmão é um amigo para sempre- porque tem de ser. e tu es uma segurança na minha vida, sabias? sei que um dia, porque a nossa familia é assim pequenina, vou-te ter como unica lembrança de tudo o que vivemos sempre, vou-te olhar e ver a mãe e o pai e os avós e os doces que lambusavas quando eras gordo, e as viagens intermináveis no carro, as lutas e os carrinhos, as explicações de matemática, as músicas e as piscinas de verão, e esses olhos ternurentos de amigo, mesmo quando te enfureces com o mundo. gosto de ti, demasiado, e isso não é coisa precisa de se dizer. parabéns, meu irmao gordo e bébé.
encontramo-nos em casa, cumplices, "como sempre, como dantes."

25.2.05

afectos

é palavra que gosto

24.2.05

O tempo subitamente solto pelas ruas e pelos dias


o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

José Luís Peixoto , in Criança Em Ruínas

23.2.05

adoro...



...molas,
de madeira.

tudo o que são em cada nó,
e todo um mundo de tudo o que as rodeia,
por elas existirem assim:
transparentes a tudo o que são
matéria que fica, sombra que passa.

adoro-zelias...

22.2.05

cidade amarela

hoje senti a cidade pela parte nua.
descalça, olhares
descalços, descalças vidas
breves olhares
a parte mais nua.

a cidade amarela
amarela confiante, extravagante, descalça
amarela fragil.
Percorri gentes e amarelo:
a cidade amarela,
palma da minha mão.

sem ninguém, lá fora a noite eram
braços fortes que a embalavam
e seguia
confiante, amarela, frágil. ninguém.

cidade dona dos meus segredos
guardadora de estórias, enredos
cidade dona dos amores olhares
frágeis amarelos fortes medos

amarela cor
nos reflexos das coisas
amarela vida
nas partes das gentes
amarela, sol que passa:
segura, eterna embalada,
pelos fados das ruas,
cantos das esquinas,
memorias descalças de quem passa
no rasto amarelo,
amarela amarela.

amo. a cidade amarela.

21.2.05

You know


You know

Did i tell you
Where i went this morning
Did i tell you
Where i've been all day

You know
Where i go when i'm without you
You know
Behind the sky
The sun is always
Blue

Did i tell you
Where i spent my evening
Did i tell you
Where i spent last night

You know (you know)
Where i go when i'm without you
You know (you know)
Even ... stands
The moon is always
True

You
Only you

Did i tell

Anja Garbarek in Smiling & Waving

20.2.05

"I'M A ROCK STAR!"



encontrei esta fotografia por aí: que espectáculo!
até a substituia pela outra no post dos The Gift mas...
merece um novo post. no comments... :)

esqueces-te


fotografia margarida delgado

esqueces-te de mim em cada segundo que deixas de querer viver aquilo que sentes. esqueces-te de ti. cada vez que o tempo é o tempo que passa intacto no tempo de ti, esse mesmo, que procuras incessantemente: como se os dias fossem mais dias quando descobertos inteiros crús, como se não fosse melhor deixá-los seguir, sem pressa. Admiro-te. de uma maneira intensa, doce: como trabalhas os teus dias claros e os moldas aos teus gestos. ternura. os nossos dias têm sido assim, claros doces e claros claros. a claridade custa aos olhos claros, sabias? mesmo assim, admiro-te tanto. esqueces-te de ti e admiro-te quando me esqueces na esquina nervosa corrente dos dias. tivesses tu calado esse silêncio suspenso nos minutos que fazem dos dias os dias mais meses e anos que dias horas minutos apressados, um cada segundo de ti tornaria diferente um novo dia, feliz. esqueces-te de nós em cada instante desarmado. e os nossos dias são dias nossos intensos nossos. memórias nossas. preciso de te ver, preciso de ti. esqueces-te.

19.2.05

Ouvir

Queria fazer-te entender
Que as palavras pesam como os sentimentos
E é tão difícil ouvir sem sentir
E é no silêncio
Que eu descubro os teus mistérios
Os olhos dizem o que vai no coração
E é tão difícil ouvir sem sentir


Ouvir, The Gift in Vinil

a eles, obrigada



cheguei agora a casa.
há um silêncio que custa, é o mesmo silêncio de quando se vem de uma discoteca e o silêncio de casa é um silêncio ruidoso que não deixa ouvir o silêncio silêncio, aquele silêncio que precisamos porque: não sabemos porquê? é esse mesmo. está comigo agora. conheço-lhe todas as partes de cor. como conheço de cor as músicas deles: não que seja fã de ouvir a toda a hora, mas que seja fã de ouvir à hora certa, de entrar todo o som inteiro e ficar ficar e soltar e saltar. vim agora do Olga Cadaval. fui ver os The Gift. adoro. adoro sabê-los auto-didactas, e adoro a humildade e falta de arrogância com que nos dão, a quem ouve e compra e vai, tão boa música. adoro o ruido perfeito na imperfeição das formas que pintam as particulas do ar que vai deles aos outros. adoro os saltos e as danças da Sonia. os ténis. voz. saltos. presença. voz. dentro da voz: voz. voz que vem de dentro. gostei imenso do pano a cair teatral. adoro a forma repetida do John dançar ritmado musico-estilo papagaio?... adoro o Nuno naquele segundo em que vai começar a cantar lá em cima de alguma coisa grande: também gosto quando canta e quando dança e quando de repente faz tudo o que é preciso. adoro os The Gift “alternativos” sem o serem! Adoro a Sónia e o Nuno quando se juntam ao Rodrigo Leão. hoje, as luzes estavam perfeitas- mesmo que nunca tivesse ido a nenhum concerto deles, acho, não sei porquê, que hoje foi especialmente especial. adoro alguns dos videos naquele ecrã que parece vindo directo do matrix. adorei o som, adorei ouvir pela primeira vez uma música portuguesa deles ao vivo, e adorei porque a música é optima, porque há um silêncio que nasce dela e a faz timida e deseperadamente fabulosa. odiei duas pessoas que falavam alto lá atras enquanto se cantava perfeito lá em baixo. gostei de acabar aos saltos na batida certa-acho que era a certa. enfim... está perto da perfeição, o espectáculo.
adorei tudo: "lindos meninos, portaram-se mesmo, mesmo, bem!" :)

17.2.05

:)

"Porque um simples sorriso é tão sábio
Como um conceito difícil."

Pudesse eu

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!


Sophia de Mello Breyner Andreson

15.2.05

humanos...!

vim so dizer que adoro gente sincera e honesta/ tenho pena de gente mentirosa, quase chego a sentir desprezo. mentir mentir mentir... leva a mentir mentir mentir. as verdades: as verdades só nos levam às verdades verdades, ainda que doam, as que doem, quando doem: se não doerem melhor.
adoro tanto pessoas sinceras.
"humanos...!"

porque sim.

Gostava de ter a certeza que a irmã Lúcia foi para um sitio melhor do que era aquele em que estava. Gostava de saber certa a sua fé. Gostava de saber que a paz em que vivia é maior agora, onde quer que seja esse lugar de ir e não voltar. Já acreditei mais na religião católica, também já acreditei menos. é bom ter esta certeza: é sempre uma opção de cada um. e essa opção pode levar a todas as convicções e formas de vida diferentes. A irmã Lúcia tinha um olhar cheio de ternura: não me vou esquecer desse olhar. dessa paz. desta vez sinti a morte diferente das outras. senti a morte pacifica, morte não morte. quase não lhe senti o medo. como se a irmã Lúcia nunca morresse, ou nunca tivesse sido humana a 100%, fosse uma mistura de santidade com ser humano, e acabar é sempre a incógnita mais dificil. neste caso nada acaba nem nada começa, sinto a vida a mudar de sitio: mudar. Tenho a certeza que na imperfeição das naturezas humanas a irmã Lúcia tirou a melhor parte, e vai para o melhor lugar. porque só assim faria sentido a vida devota que levou, contemplativa, dentro de dentro de si, de Deus. sagrada, divina. Tenho estas certezas, que não são certezas, só convicções: a chamada fé? tenho a certeza que onde quer que a irmã Lúcia esteja e onde quer que vá e existindo ou não aquilo em que toda a vida acreditou, aquilo que foi a sua vida, vai estar bem, porque sim. porque só pode ser assim.

o regresso.

para quem ficou curioso com a musica "guerreiro menino", regresso com o link para a ouvirem http://www.psd.pt/ na coluna da esquerda carreguem em "a campanha - vídeo" e depois seleccionem Guerreiro Menino. vale a pena. :)

14.2.05

dia não?

gosto de jantares de solteiras/os. porque descubro que não sou a unica. porque somos as ovelhas negras do sitio onde quer que estejamos. porque nos unimos em unissono contra o romantismo. o deste dia. talvez seja porque estou solteirissima, mas... não gosto de olhar à volta e ver pombos por todo o lado, em todos os lugares. não gosto do dia dos namorados. nunca gostei. acho que nunca vou gostar. ok, pode ser que um dia.. não: corações por todo o lado, rosinhas nas mãos dos senhores que hoje, so por hoje, são tão romanticos, musicas romanticas em todas as radios, e jantares romanticos, restaurantes lotados de casaisinhos... e, hoje faltou uma figura importante neste dia tão romanticamente cheio de rosas e rosinhas: o "kéfro"! definitivamente, não. este dia não. apesar de gostar de jantares de soteiras/os. este dia não.

13.2.05

tudo em nós era igual...

Éramos duas pessoas que tinham um
segredo de palavras. Éramos duas
pessoas que, ao longe, tinham
partilhado um instante. Éramos duas
pessoas.

Tudo em nós era igual.

José Luís Peixoto in "Uma casa na Escuridão"

"guerreiro menino"

Sem querer entrar em qualquer tipo de acções partidárias, há uma coisa neste feroz tempo de campanhas repletas de agressões e boatozinhos que me faz querer escrever. Ou seja, estou-me a referir à música que abre a campanha do PSD para estas eleições. Música tal que me fez rir perdidamente e pensar se seria campanha de outro partido, a gozar, ou não. depois, fez-me pensar como seria bom se as nossas preocupações se resumissem às citadas na dita música (mas... será suposto ter pena?). e por fim, já sabendo que a música tinha sido realmente escolhida pelo próprio partido, (e não, não estão a gozar...) "comovi-me" com o quão poético é o nosso "guerreiro menino", quase merece miminhos no proximo dia 20... :)

para quem ainda tem dúvidas sobre a inclinação política, está aqui um link porreiro que pode ajudar, mostra-nos a nossa "orientação"- esquerda ou direira, liberal ou autoritaria, a bússola política.

Riam, chorem, whatever... mas vão votar! Cá vai ela:


Guerreiro Menino (Um homem também chora)

"Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura
Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem refeitos
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Pois ama e ama
Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz"

11.2.05

pico


há la sitio onde tenho saudades de pisar é este, algures na parte oeste da montanha do pico.

Quando fui aos açores, quando fui para os açores, fui sem conhecer nem imaginar para o que ia. surpreendente. hoje sei que conheci por aquelas terras o verdadeiro sentido da palavra Natureza. ou alguma coisa parecida. coisa intacta. matéria nobre, intacta, (divina?) pura. tenho muitas saudades dessa viagem, tantas. ainda oiço nos dias mais açoreanos, o barulho do silêncio daquele mar naquela terra naquele som tão silencioso de mar; as vezes quando fecho os olhos ainda vejo as cores que só existem la, cores; ou sinto nas mãos que tremem saudades a terra de memorias e vulcões, o mar. aquele mar. se há sitio onde me espraiava "eternamente" seria por ali, algures entre o cimo e o baixo da montanha mais alta de portugal, virada para o sol a derreter-se no mar, a misturar-se nas nuvens açoreanas tão nuvens e tão especiais, perder-me na terra do nunca verde verde e no mar que não acaba. de braços abertos.

8.2.05

gente

vim só dizer que... gosto de voces!!

gosto TANTO de pessoas, de GENTE!

há situações em que me faço lembrar a minha avó. não conheci pessoa que gostasse mais de pessoas na vida. e cá estou eu por vezes, embasbacada com o meu gostar, de "pessoas"! pessoas, as que passam por mim na rua, ou os amigos que são um bocadinho "d'eu mesma", as que estão no outro banco do comboio, as que dormem nas ruas frias ou as que estao nos melhores hoteis, as que são felizes ou as que sofrem um bocadinho, ou muito... pessoas, de todas as cores, idades, jeitos, gestos, pessoas. dou por mim com um pedacinho do que foi a minha avó e as pessoas da vida dela. a sofrer com eles, ou feliz por eles, a querer ajudar, ou a ser vencida pela preguiça... pessoas!

fico com vontade de abraçar o mundo...

7.2.05

o poeta

"Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia"...

Vinicius de Moraes

5.2.05

há dias em que gostava...

... de ter nascido no meio do sambódromo do rio!!

há dias em que gostava que a vida fosse só

S A M B A, S A M B A, S A M B A, S A M B A, S A M B A,
ú-ú-úúúú-ú ú-u-úúúú-ú ú-úúú-ú-úú ú-ú-úúúú-ú ú-ú-úúúú-ú (ler no ritmo do samba... :))


RIO e mai nada que já é tudo, muito samba e muita animação!!

há dias em que gostava....

4.2.05

cortar raízes.

cortar o cabelo é uma lufada de ar fresco na vida. acontece-me sempre. mesmo quando fica mal cortado. mesmo quando no cabeleireiro esta uma criança aos berros ao meu lado. e sabem tão bem os dias a seguir a cortar o cabelo, é como se mudassemos uma parte de nós só por mudar um bocadinho o fisico e como se mudar a rotina e o habitual fosse uma sensaçao nova, nos mudasse tambem a nós. como quando tiramos um dia especialmente dedicado às coisas terra a terra da vida (chamadas futeis) e vamos comprar imensas roupas e coisas novas só para mudar o visual. um dia diferente. para haver uma rotura com os dias anteriores e no fundo haver um impulso permante à nossa não-rotina. como se os outros reparassem nas nossas roupas novas: se eles só reparam na nossa cara nova. é tudo uma coisa nossa. de cada um. a nossa constante mudança e motivação. se pudesse, acho que ia adorar cortar o cabelo todos os dias, para experimentar sentir assim sempre, um dia diferente, uma imagem diferente da vida no espelho, ar fresco e cortar raízes. e como o povo adora cortar raízes!!

jack johnson...


...finally in lisbon! :)

3.2.05

maria, maria

ontem aprendi mais uma expressão popularusca com os nossos velhinhos.... :)

"maria maria, sua cara de enguia!"

eheh

2.2.05

upa upa II

Kunami (fresquinho)

chama-se kunami. é um fruto. pode ser confundido com ameixas podres,
mas só por quem tenha pouca cultura frutesca!
é kunami, do bom, com "k"!
kunami é um fruto tropical muito raro, por isso é que o preço upa upa, puxadote...
kunami sabe mesmo a kunami, daí o nome.

1.2.05

viajar

"Uma das pesssoas que me ensinou a viajar foi a minha mãe. Ensinou-mo com uma simples frase. A única vez que viajámos juntos, fomos a Roma. Estávamos sentados uma tarde na Piazza Navona, o seu local preferido de Roma. Ela bebia um dos seus inúmeros chás diários e há mais de uma hora que ali estávamos, sentados a comtemplar a beleza perfeita da praça...Mas estavamos ali há demasiado tempo, era a primeira vez que vinha a Roma e tinha, logicamente, alguma pressa de seguir caminho e ir ver outras coisas. Sentindo a minha impaciência, a minha mãe disse-me: "Miguel, viajar é olhar". Só o olhar não mente, porque todo o real é verdadeiro."


Miguel Sousa Tavares in "Sul"

grito II

tenho andado constipadissima, daí o grito, o desespero.

o g r i t o s e r v i a p a r a l i b e r t a r t o d o o t i p o d e v i r i n h o s i n s u p o r t a v e i s q u e s e a p o d e r a r a m d a m i n h a p e s s o a e m e p r e n d e r a m à c a m a n e s t e s d i a s - a t s h i m ! . . .

mas obrigada a quem se preocupou. até porque há gritos gritos que são assim gritos desses e que acontecem tantas vezes. acho que entre amigos, nunca estamos completamente ausentes, só um bocadinho menos presentes, falta de tempo, ou falta de tempo disponivel... atshim!...
Lembrei-me de uma música que o que tem de depressiva tem de boa. adoro, que me faz lembrar Marvão de alguma maneira, que se chama Grito, e que é também ela sobre esse grito, grito de gritar.


"Meu Deus, se nos velas
Diz-nos o que é que nos espera
E porque é que o sol demora atrás da colina escura
Anda dar luz ao caminho que a gente assim desespera
É como sonhar sozinho
Como se o mar fosse raso
E o céu não tivesse altura


Sempre no silêncio
Dá gozo a voz deste chão
Mas inda me dói a alma
Na dor do corpo e das mãos
Tenho medo deste frio
Que à noite sinto no peito
Como se andassem cavando
Como se andassem fechando
Buracos de solidão
A gente não sabe
O que há depois do horizonte
A gente é um vulto curvado
Com uma sombra defronte
A ouvir rumores na distância
A sentir dentro um segredo
Feito de sonhos calados
Feito de braços fechados
Num poço fundo de medo

Anda dar luz ao caminho
Que já nos dói a demora
É como sonhar sozinho
Um sonho que nunca vinga
Num grito que nunca chora"

Mafalda Veiga

31.1.05

estrada



estrada como a vida fugaz. momentos eternos, na estrada.
estrada dos detalhes mágicos da vida.

grito

( Se eu gritar... alguém me ouve ? )


"Faz chegar até mim as palavras que me aproximam de ti
põe também na minha boca esses lugares (...)"

Miguel Patricio

“podemos ser realistas do irreal e figurativos do invisível”

balthus

30.1.05

os dias iguais

a D. Maria espera impaciente o tempo que não chega. tem os dias contados e sabe de cor as dores que a perseguem. Acordou cedo, fez questão de acordar os colegas todos do lar, com sorrisos e boa disposição. a D. Maria nunca chora: é a pessoa mais alegre do lar. só chora baixinho e nunca chora, porque não. porque é forte. fui visita-la. a D.Maria sabe que pertence àquele lar como a vida lhe pertenceu inteira. estava quieta, sentei-me por ali onde a luz pousava devagar. a D. Maria falou-me dos sonhos que ainda tinha e chorou, como se nenhum pudesse acontecer no tempo que hoje lhe foge pelas mãos. chorei com ela. pensei: a vida é tão fugaz. quanta ternura desperdiçada. nunca noutra vida teremos tempo para viver o que falta no nosso tempo da nossa vida que é hoje. pensei: a D. Maria pensa que a vida hoje são dias de tempo que não passa e voa sem mudar as horas que lhe fazem os dias iguais. A D.Maria sabe tão melhor que eu como se faz para acreditar que hoje é que conta. que não há sonhos que não possam existir em tempo de nós. eu olhei-a com vontade de a abraçar e a levar de mãos dadas a todos os sonhos que ainda lhe são pequeninos de vida. Pensei: se a levar a todos os sonhos a vida acaba. Nenhum olhar lhe fará melhor do que aquele que lhe diga um dia, um dia... um dia D.Maria, um dia, tenha fé!.. . Disse-lhe em silêncio o quanto gosto dela e de a ver fazer os dias dos outros menos iguais aos dias que são dias tão grandes como os que lhe enchem os dias. a D.Maria acordou sorridente, os outros quietos. quietos. acordaram para as batalhas dos dias iguais. uns, dizem coisas que nunca percebo, e isso doi. às vezes olham com caras estranhas e isso doi. não me faz so lembrar os dias iguais dali, mas também os dias iguais que a D.Fernanda teve com gente maluca que nunca chegou a perceber. pois é, tive momentos com a D.Maria em que me desliguei das suas historias e saudades e vida e corri lembranças, a minha memoria memoria. mas o medo não tinha razao de ser: não há dias iguais, nem histórias iguais, nem cheiros iguais em pessoas iguais. tudo é parecido, efémero, fugaz, igual, corrido, antigo. a D.Maria diz-me para não me preocupar nem me assustar com quem me olha estranho dono de nenhum olhar, é normal. é como se a vida lhe fosse um milagre contínuo, e a ninguém devesse aquilo em que acreita. Eu contra o mundo. Hoje senti saudades e apeteceu-me escrever-lhes. gratidão talvez? Como se um dia que fosse hoje lhes pudesse dar os sonhos que lhes fazem os dias acordarem doces devagar iguais iguais.

28.1.05

parabéns a ti

amizade saudade abraço
grande azul olhos azuis azul mar praia riso
noite noite noite lua amizade.
loira as loiras as outras loiras.
viagens descobertas olhar.
vida morte amizade saudade abraço perto longe perto.
eu pequenina tu grande nós espelhos vida cumplicidade.
jogos. noite noites amigos.
promessas esperanças compromissos.
cor
namoros rapazes rapazes rapazes amigos.
cartas pita s.joão telefone torres mar piscina sol verde.
fotografias imagens memórias futuro nós amizade.
música as nossas
maluquisses copos cumplicidades.
crescer ficar grande guiar viajar postais férias almograve mar.
amigos noite dia sol.
liceu aulas intervalos namoros faculdades.
telefone café cafés abraços.
pais livros telemovel tempo reiki mãos pés grandes.
sorrisos. sorrisos. sorrisos. olhos.
imagens jantares quarto quarto cheio cheio nós amizade.
sempre.
tu grande.
dias coloridos.
contigo, sempre.
parabéns.


como é que consegues fazer o mundo tão especial à tua volta? (obrigada por existires.)


és essencial na minha vida.
Parabéns a ti.


24.1.05

lugar "meu"




um dos "meus" lugares.

Enquanto ouvia Caramel, da Suzanne Vega, fui indo para um ambiente que me era familiar: quente como a harmonia da música, doce de amigos. Lembrei-me deste lugar dos sonhos, das estrelas. há uns dias, ia no carro para a faculdade e fui exactamente parar a este lugar: enquanto o caetano sussurrava, "mimar voce(...)".

há ambientes que são imagens e sons, há imagens e sons que são memórias que são músicas e músicas que são histórias e histórias que são as imagens do ambiente das memórias das músicas dos momentos essenciais das partes mais felizes de qualquer coisa que fomos. que fomos. que somos.

23.1.05

cadê o "mundo"?




"o homem só se apercebe, no mundo, daquilo que em si já se encontra;
mas precisa do mundo para se aperceber do que se encontra em si (...)"

Rui Chafes

antes e depois

mudei um bocadinho o meu estilo de vida desde que tenho um blog onde gosto de escrever, sobre qualquer coisa, o que quer que seja. agradeço vivamente à Rita Ferro Rodrigues, por me ter ensinado a gostar de blogs, a gostar da parte de partilhar com o mundo as nossas coisas, mesmo as mais intimas, a Rita ensinou-me a gostar ainda mais da escrita desprendida dos dias. -entre outras coisas. depois dos primeiros tempos na "blogosfera" sinto-me um bocadinho diferente: há uma reacção nova que tenho em relação às coisas, e boa: filtro melhor aquilo que me acontece no dia a dia, como se tudo o que vivesse fosse motivo de escrita, e é, quase- ou pode ser, dependendo da maneira como se (des)escreve. o maior problema é a disponibilidade dos dias que correm. dias que correm no verdadeiro sentido da palavra- porque os dias têm corrido a correr ultimamente.
antes de ter o blog, nunca pararia diante de uma criança na rua a inventar palavras para descrever o seu sorriso; nunca pensaria que o lugar da luz do dia é a vida, a praia em vida crua; nunca iria pensar em descrever o desenho perfeito da perfeição em palavras simples; nunca saberia como dizer diariamente àqueles que gosto, que são parte de mim, assim como nunca saberia dizer àqueles que mudaram a minha vida, por pouco que seja, o quanto lhes estou grata por isso; nunca iria pensar em descrever a solidão da velhice ou a dor dor da morte nua, ou, num acto de coragem escreveria para mim tais coisas, o que nunca seria vivido da mesma maneira; ou seja, o blog foi, sem duvida, uma marca importante, um lugar seguro onde me tenho inteira, onde o mundo me tem inteira. vou continuar, porque enquanto estou aqui, sou feliz, mesmo a descrever as maiores babuseiras. obrigada a quem me tem lido. (ja sinto saudades de escrever) os vossos comentarios são abraços abracinhos- e, saber que de alguma maneira vos entro pela casa a dentro -amigos- tira-me um bocadinho das culpas de andar tão sem tempo para estar com voces. saber que também vos leio a alguns nas nossas conversas de vizinhança, e que por aí nos vamos tocando entre os fugazes cruzamentos da amizade no nosso tempo.

20.1.05

lugares que são abraços

aprendi contigo que há lugares que são como abraços. tenho a certeza que amanha vais inaugurar mais um abraço no mundo. feito por ti, contigo lá. tu e nós. daqui, imagino as coisas espalhadas pelo chão, coisas e pessoas (como em casa da té), a ella fitzgerald lá ao fundo a cantar só para nós. um dvd que se revê. nós a chegarmos devagarinho e de repente estarmos todos e faltar alguém. quando fui à tua casa, antes de ser aberta oficialmente ao publico, tinha cheiro a tinta e paredes brancas, pintadas de cima a baixo, com pressa. tinha um armario por forrar, não sei porquê mas tenho a impressão que é das partes mais bonitas da casa, agora. pensei: a casa tem momentos que se deixam acontecer. a casa tem momentos mais antigos que as próprias paredes que a suportam. a casa tem uma magia so dela, memórias cravadas no chão e em toda a parte, e futuro escrito nas salas nascidas de ti. gostei das namoradeiras, à antiga. quando fui, imaginei como seria habitada por ti dali a uns tempos. imagino como estará agora. a casa que é nova e antiga e que é tão tua que não podia ser de outra pessoa. agora, adivinho: tem cores quentes e chão. sabe a abraço.
ensinaste-me que há lugares que são como abraços, como se uns pudessem ser e outros não. e é assim com quase tudo. mas há uma coisa que não sabes, tenho a sensação que todos os lugares que são teus não podem ser outra coisa senão abraços, apertados no fundo das melhores memórias. Boa sorte.

19.1.05

(boa noite...)

"boa noite, amigos, companheiros, camaradas
a vida é feita de pequenos nadas."

Sergio Godinho, in "Pano Crú"

18.1.05

memórias II


Laughing as I pray

"As I'm walking through these streets again
I'm crawling
And as I try to live my life again
I'm falling down

Can you pick me up
Can you let it stop
Can you make it go away

Won't somebody help me, is it hard
To let me find my way
Won't somebody love me (for a start)
I'm laughing as I pray

Where is the road
I must look at the road
I must pray a little longer
Or laugh a little more"

K's choice

17.1.05

um abraço

o pai da ana era grande. tão grande que não cabia nela o orgulho. ainda a vejo hoje a contar-me estorias de quem conviveu de perto com fernando pessoa, orgulhosa do pai maior que resistia ao tempo e a tudo. ainda a vejo a indicar-me uma revista onde lhe aparecia o pai, grande e bonito, que li e saboreei como uma historia de vida ternurenta e cheia. acho que o orgulho é a unica coisa que sobra e que aumenta neste instante. talvez todos os lugares por onde tenham vivido as inesqueciveis memorias de pai e filha. a ana herdou isso do pai: é também uma pessoa grande, capaz de nos orgulhar até não cabermos mais. imagino-a a receber as naturais lamentações, e doi-me ainda não lhe ter dado o meu abraço, sem lamentações, para não tirar o sentido da palavra, de tanto ser ouvida... doi-me sabe-la triste. triste por ter perdido essa referência, essa vida que transbordava vida e estorias e estorias e memorias. a ana é uma das pessoas da minha vida, uma parte da familia que escolhi. e talvez por isso aqui escreva, porque a adoro. porque me lembro que os açores lhe trazem os momentos mais marcantes da vida, com as ilhas em pano de fundo. este foi mais um, daqueles que não se esquecem nem se apagam, para um tempo que é sempre. aninhas, um abraço do tamanho do mundo- que caiba em ti o orgulho e os valores e os leves contigo para sempre, para que nunca (mesmo quando duvidares) percas esse brilho que é so teu.

16.1.05

o lugar da luz do dia



Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insectos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insectos,
e a distância das aves, que doía.
Se os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.

Fiama Hasse Pais Brandão (in «Cenas Vivas», Relógio d’Água)

complicar a vida

aprendi aos 20 anos, e numa oração, que complicar a vida é uma coisa boa. há umas semanas, lá na asul (falo na asul outra vez porque este post vem em seguimento do anterior...não, não estou viciada no assunto...:P) enquanto se lia uma oração, dizia-se pelo meio que "é preciso sair de nós mesmos, complicar a vida, perdê-la por amor de Deus e das almas...". ao principio discordei totalmente com esta frase, ou seja, ela veio confirmar-me que a igreja é mesmo um "assunto complicado" e que gosta mesmo de nos complicar as vidas. depois explicaram-me as entrelhinhas desta frase e, mais tarde, fez todo o sentido. deixando de lado (sem querer substimar...) o conceito "igreja" e aplicando esta frase ao nosso (de qualquer tipo de crente) dia-a-dia, percebe-se que complicar a vida são todas as pequeninas facilidades que temos de abdicar por sentidos mais trabalhosos e, que, por serem mais trabalhosos (ou por darem mais luta), nos vão dar melhores frutos. Ou seja, (não sei se os meus leitores (lol) concordam comigo ou não, mas eu acho que faz sentido assim, e nunca tinha pensado por este ponto de vista.) o facto de sairmos de nós mesmos e complicarmos as nossas vidas é importante: sair de nós mesmos sempre achei e sempre tive consciência que só pode fazer bem, mas aqui o importante é sair das nossas facilidades e dos nossos comodismos e não optar pelo caminho que à partida parece mais fácil: nem sempre o que parece é. e, fazendo assim um exame de conscência, dá para perceber que na maior parte das vezes aquilo que nos deu mais trabalho e nos trouxe mais complicações, são os nossos maiores orgulhos e as nossas maiores alegrias. no fundo, só o tempo é que nos faz perceber estas coisas com a nossa própria experiência... e mais, a preguiça é a maior inimiga destas complicações que afinal são boas: e eu, sofro de perguiça em estado grave.

15.1.05

sobre a asul

mas das ultimas vezes foi diferente. fomos com pressa na mesma, como sempre, mas sem medo. eu fui sem medo. a asul não morde. acho que já conhecemos de cor as orações e as coisas duras e leves e fortes e frágeis que nos vão dizer: aqueles que acreditam mais do que nós. Mais do que eu. gosto tanto de ir, confesso. gosto ainda mais de ser do contra. gosto demasiado de pôr tudo em causa, num dos ambientes mais seguros e confiantes e crédulos que ja conheci. Às vezes sinto-me uma aberração: por andar ao contrário. por acreditar noutros conceitos diferentes- que na essência são tão iguais- sinto que eles não sabem, e sinto que eles sentem que eu não sei os que eles sentem: e isso é fantástico! às vezes há vezes em que fico só a ouvi-los, e ouvi-los só é bom. sabe a abrigo. eles são certos nas coisas deles, pequeninos e grandes, fazem coisas de gente boa: constroem mundos melhores. eles são pequeninos como eu, cheios de vontades que se tornam reais porque somos pequeninos e não distinguimos os sonhos da realidade. não há maneira de ser mais feliz do que sermos criança para sempre. às vezes, há vezes em que me confundo com eles. acho que há qualquer coisa nessas vezes que me enche,que faz sentir melhor quando preciso. mas é mais do que essencial pôr tudo em causa. é demasiado forte para se aceitar sem saber bem o que é: esse conceito esquisito de religião que sabemos existir certo desde sempre. até sermos crescidos e pensarmos e duvidarmos de tudo. até sermos ainda mais crescidos e voltarmos atrás nas roturas que fizemos quase sem pensar. (re)começar. Quero começar a ajudar os outros -no verdadeiro sentido da palavra, preciso disso para viver melhor: como um elixir, ou, uma espécie de missão. escrevo para me afirmar que 'tou lá': mesmo que me confunda cada vez mais com eles (os grandes que são pequeninos) ou que me perca das suas teorias tão certas. a asul tem-me feito bem. gosto deles e gosto de os ouvir. há uma energia maior no espaço vazio que sobra de nós: sente-se à distância. estar perto tem-me feito acreditar mais num mundo melhor. ter a certeza que existe: e tão perto do perto que somos nós.

não me vou esquecer

não me vou esquecer. não me vou esquecer desse sorriso. não me vou esquecer nunca desse sorriso que ilumina as ruas por onde passas. as ruas por onde passas seguro: seguro desse mar frágil que te rebenta por dentro. não me vou esquecer. tens um sorriso sorriso que me faz sorrir com ele. um sorriso forte de quem é forte frágil no avesso. perco-me de vontades de me perder nesse sorriso. só por ser um instante- o teu sorriso por dentro: forte forte como tu por fora. há uma coisa que sei que não me vou esquecer nunca (por mais que a vida me faça esquecer dos sorrisos que iluminam todas as ruas da vida): esse sorriso sorriso eterno sorriso em mim.

12.1.05

do outro lado


fotografia margarida delgado

há cor do outro lado da rua. conheces? é cor de gente misturada. das casinhas ao monte com ruelas descalças, em casa.
é cor de terra.
não é cor nada. chama-se cidade. a minha.
tem o sabor da chuva e da terra molhada, consigo vê-la daqui.
do outro lado está a cidade no dia que nasce, parada. vazia de gentes. só cheia de si.

11.1.05

a familia que escolhemos

Hoje, só hoje e só por ser hoje e porque sim, queria dizer ao mundo que vos adoro: aos meus amigos.
nunca é demais agradecer ter-vos perto. um dia ouvi alguém dizer que os amigos são a familia que escolhemos. achei fenomenal. porque a maneira de gostar é mais ou menos a mesma, depende dos casos. muda a forma ternurenta como temos obrigatoriamente de nos mimar todos os dias. mesmo que só em pensamento.
quando o tempo aperta surgimo-nos nestas alternativas esforçadas e pouco ao nível de dizer os sentidos de nós. as nossas maiores forças: amigos. digo, hoje: adoro-vos.

os tropeços...

ok ok arrependi-me logo de ter sido tão violenta num dos meus ultimos posts... mas estava mesmo enojada.
tenho aprendido todos os dias a fazer coisas boas, a cada dia melhores: ou, a cada dia mais. muito mais do que a importância das palavras, a importância de sermos connosco. muito mais do que a importância do pensamento dos outros, a nossa consciência. tenho aprendido e tenho tido imensas lições assim completamente de graça, o que não quer dizer que já consiga dominar a parte de só fazer coisas boas, ou dominar-me e deixar de ter os ataques impulsivos que me constroem. não é fácil... é um caminho que se faz todos os dias. e vou tentando melhorar.

10.1.05

Hora

(para melhor o ambiente. :) e porque hoje vi o mar e cheirei-o e senti-o. a pessoa que nos seus versos tão bem o descreveu: )


"Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar."



Sophia de Mello Breyner Andresen

se o nojo existe...

tenho um professor que é um nojo. assim ao longe até disfarça. ao perto também, tirando algumas escapadelas a uma realidade estranha, algum tom esverdiado no seu cabelo a atirar para o grisalho... até podia ser uma coisa natural e indiferente, mas agora com uns meses de convivência, acho-o um nojo por si só, ou seja: ele não precisa de abrir a boca para ter os reflexos exactos de alguém que me "repela"... (como diz o joão: argggh!)

hoje tivemos uma aula na escola d. luisa de gusmão, ficámos numa sala que tinha um quadro branco, daqueles onde se escreve com marcadores. o professor queria desenhar um corte e não tinha a caneta especial para o quadro, remidiámos com um marcador normal (pois, deu asneira...). e escrevo sobre isto, (que é tão pouco interessante) porque hoje foi atingido o cumulo da nojisse: o senhor arquitecto tão cheio de formalidades, como quem faz a coisa naturalmente, cuspiu para o quadro. (mas uma cuspi "daquelas", deixando-se até ficar com umas pinguinhas na barba...) naturalmente. "talvez estes riscos só saiam com alcool, ou talvez com um paninho humido, ou talvez com... cuspo?!" e vai disto. conseguiu-me por mal disposta até agora.
ah pior: os riscos não sairam, só borraram um bocadinho. (nojooo!!)

(Ainda bem que partilhei isto com vocês- estou muito melhor agora.)

9.1.05

memórias




conselho de ano novo fora de tempo

"eu sou a parte do mundo que eu posso mudar."

anónimo

8.1.05

o acaso

ultimamente tenho vivido acasos, talvez sejam todos os mesmos de sempre, mas desta vez reconhecidos como acasos que são. O meu novo projecto vai-se chamar acaso. vai-se basear no acaso. ainda não sei bem como, nem que forma física lhe vou dar (esta é a parte que mais me custa fazer). Vai nascer do acaso porque ele já nasce do acaso mesmo antes do acaso acontecer. esta coisa de fazer projectos é uma loucura, as ideias surgem-nos em todo o lado e de todas as maneiras, fragmentadas. temos de trabalhosamente as decifrar e as fazer surgir em forma fisica, arquitectónica. sem que nunca se perca o sentido conceptual que o fez criar-se desde o principio da sua (tentativa de) existência.
Acho que no fundo o que quero é fazer um link directo da arquitectura para a minha vida. porque o território do novo projecto é um acaso fantástico na cidade, é um tropeção que nos abre uma janela com uma vista espectacular de lisboa. mas melhor do que isso é o facto de por trás da janela e por trás nós sermos só nós e a janela e nós em nós em silêncios de nós. o facto da natureza ter ajudado a criar barreiras que nos proporcionam lugares como este, onde se respira paz. (claro que o programa tem acasos feitos por pessoas estranhas com ideias estranhas que eu acho que nunca vou compreender.) e o link aparece porque tenho vivido acasos pessoais, que me têm fortalecido e enfraquecido e que acima de tudo me têm feito abrir os olhos para determinados assuntos, um deles é este de saber e acreditar sempre que nada acontece por acaso. e tudo o que recolhes dos dias são frutos para sempre, nada por acaso. acasos: tropeções surpreendentes que alteram minuciosamente o curso da vida de qualquer pessoa. só temos de os fazer importantes em nós e decifra-los. aceita-los 'with open arms' e tirar o melhor partido possivel. fazê-los nascer no mundo certo, há hora certa, e aprender a sua existência.

6.1.05

supertições

quando um gato preto atravessar o teu caminho,
significa que ele vai para algum lado.