25.2.05

afectos

é palavra que gosto

24.2.05

O tempo subitamente solto pelas ruas e pelos dias


o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

José Luís Peixoto , in Criança Em Ruínas

23.2.05

adoro...



...molas,
de madeira.

tudo o que são em cada nó,
e todo um mundo de tudo o que as rodeia,
por elas existirem assim:
transparentes a tudo o que são
matéria que fica, sombra que passa.

adoro-zelias...

22.2.05

cidade amarela

hoje senti a cidade pela parte nua.
descalça, olhares
descalços, descalças vidas
breves olhares
a parte mais nua.

a cidade amarela
amarela confiante, extravagante, descalça
amarela fragil.
Percorri gentes e amarelo:
a cidade amarela,
palma da minha mão.

sem ninguém, lá fora a noite eram
braços fortes que a embalavam
e seguia
confiante, amarela, frágil. ninguém.

cidade dona dos meus segredos
guardadora de estórias, enredos
cidade dona dos amores olhares
frágeis amarelos fortes medos

amarela cor
nos reflexos das coisas
amarela vida
nas partes das gentes
amarela, sol que passa:
segura, eterna embalada,
pelos fados das ruas,
cantos das esquinas,
memorias descalças de quem passa
no rasto amarelo,
amarela amarela.

amo. a cidade amarela.

21.2.05

You know


You know

Did i tell you
Where i went this morning
Did i tell you
Where i've been all day

You know
Where i go when i'm without you
You know
Behind the sky
The sun is always
Blue

Did i tell you
Where i spent my evening
Did i tell you
Where i spent last night

You know (you know)
Where i go when i'm without you
You know (you know)
Even ... stands
The moon is always
True

You
Only you

Did i tell

Anja Garbarek in Smiling & Waving

20.2.05

"I'M A ROCK STAR!"



encontrei esta fotografia por aí: que espectáculo!
até a substituia pela outra no post dos The Gift mas...
merece um novo post. no comments... :)

esqueces-te


fotografia margarida delgado

esqueces-te de mim em cada segundo que deixas de querer viver aquilo que sentes. esqueces-te de ti. cada vez que o tempo é o tempo que passa intacto no tempo de ti, esse mesmo, que procuras incessantemente: como se os dias fossem mais dias quando descobertos inteiros crús, como se não fosse melhor deixá-los seguir, sem pressa. Admiro-te. de uma maneira intensa, doce: como trabalhas os teus dias claros e os moldas aos teus gestos. ternura. os nossos dias têm sido assim, claros doces e claros claros. a claridade custa aos olhos claros, sabias? mesmo assim, admiro-te tanto. esqueces-te de ti e admiro-te quando me esqueces na esquina nervosa corrente dos dias. tivesses tu calado esse silêncio suspenso nos minutos que fazem dos dias os dias mais meses e anos que dias horas minutos apressados, um cada segundo de ti tornaria diferente um novo dia, feliz. esqueces-te de nós em cada instante desarmado. e os nossos dias são dias nossos intensos nossos. memórias nossas. preciso de te ver, preciso de ti. esqueces-te.

19.2.05

Ouvir

Queria fazer-te entender
Que as palavras pesam como os sentimentos
E é tão difícil ouvir sem sentir
E é no silêncio
Que eu descubro os teus mistérios
Os olhos dizem o que vai no coração
E é tão difícil ouvir sem sentir


Ouvir, The Gift in Vinil

a eles, obrigada



cheguei agora a casa.
há um silêncio que custa, é o mesmo silêncio de quando se vem de uma discoteca e o silêncio de casa é um silêncio ruidoso que não deixa ouvir o silêncio silêncio, aquele silêncio que precisamos porque: não sabemos porquê? é esse mesmo. está comigo agora. conheço-lhe todas as partes de cor. como conheço de cor as músicas deles: não que seja fã de ouvir a toda a hora, mas que seja fã de ouvir à hora certa, de entrar todo o som inteiro e ficar ficar e soltar e saltar. vim agora do Olga Cadaval. fui ver os The Gift. adoro. adoro sabê-los auto-didactas, e adoro a humildade e falta de arrogância com que nos dão, a quem ouve e compra e vai, tão boa música. adoro o ruido perfeito na imperfeição das formas que pintam as particulas do ar que vai deles aos outros. adoro os saltos e as danças da Sonia. os ténis. voz. saltos. presença. voz. dentro da voz: voz. voz que vem de dentro. gostei imenso do pano a cair teatral. adoro a forma repetida do John dançar ritmado musico-estilo papagaio?... adoro o Nuno naquele segundo em que vai começar a cantar lá em cima de alguma coisa grande: também gosto quando canta e quando dança e quando de repente faz tudo o que é preciso. adoro os The Gift “alternativos” sem o serem! Adoro a Sónia e o Nuno quando se juntam ao Rodrigo Leão. hoje, as luzes estavam perfeitas- mesmo que nunca tivesse ido a nenhum concerto deles, acho, não sei porquê, que hoje foi especialmente especial. adoro alguns dos videos naquele ecrã que parece vindo directo do matrix. adorei o som, adorei ouvir pela primeira vez uma música portuguesa deles ao vivo, e adorei porque a música é optima, porque há um silêncio que nasce dela e a faz timida e deseperadamente fabulosa. odiei duas pessoas que falavam alto lá atras enquanto se cantava perfeito lá em baixo. gostei de acabar aos saltos na batida certa-acho que era a certa. enfim... está perto da perfeição, o espectáculo.
adorei tudo: "lindos meninos, portaram-se mesmo, mesmo, bem!" :)

17.2.05

:)

"Porque um simples sorriso é tão sábio
Como um conceito difícil."

Pudesse eu

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!


Sophia de Mello Breyner Andreson

15.2.05

humanos...!

vim so dizer que adoro gente sincera e honesta/ tenho pena de gente mentirosa, quase chego a sentir desprezo. mentir mentir mentir... leva a mentir mentir mentir. as verdades: as verdades só nos levam às verdades verdades, ainda que doam, as que doem, quando doem: se não doerem melhor.
adoro tanto pessoas sinceras.
"humanos...!"

porque sim.

Gostava de ter a certeza que a irmã Lúcia foi para um sitio melhor do que era aquele em que estava. Gostava de saber certa a sua fé. Gostava de saber que a paz em que vivia é maior agora, onde quer que seja esse lugar de ir e não voltar. Já acreditei mais na religião católica, também já acreditei menos. é bom ter esta certeza: é sempre uma opção de cada um. e essa opção pode levar a todas as convicções e formas de vida diferentes. A irmã Lúcia tinha um olhar cheio de ternura: não me vou esquecer desse olhar. dessa paz. desta vez sinti a morte diferente das outras. senti a morte pacifica, morte não morte. quase não lhe senti o medo. como se a irmã Lúcia nunca morresse, ou nunca tivesse sido humana a 100%, fosse uma mistura de santidade com ser humano, e acabar é sempre a incógnita mais dificil. neste caso nada acaba nem nada começa, sinto a vida a mudar de sitio: mudar. Tenho a certeza que na imperfeição das naturezas humanas a irmã Lúcia tirou a melhor parte, e vai para o melhor lugar. porque só assim faria sentido a vida devota que levou, contemplativa, dentro de dentro de si, de Deus. sagrada, divina. Tenho estas certezas, que não são certezas, só convicções: a chamada fé? tenho a certeza que onde quer que a irmã Lúcia esteja e onde quer que vá e existindo ou não aquilo em que toda a vida acreditou, aquilo que foi a sua vida, vai estar bem, porque sim. porque só pode ser assim.

o regresso.

para quem ficou curioso com a musica "guerreiro menino", regresso com o link para a ouvirem http://www.psd.pt/ na coluna da esquerda carreguem em "a campanha - vídeo" e depois seleccionem Guerreiro Menino. vale a pena. :)

14.2.05

dia não?

gosto de jantares de solteiras/os. porque descubro que não sou a unica. porque somos as ovelhas negras do sitio onde quer que estejamos. porque nos unimos em unissono contra o romantismo. o deste dia. talvez seja porque estou solteirissima, mas... não gosto de olhar à volta e ver pombos por todo o lado, em todos os lugares. não gosto do dia dos namorados. nunca gostei. acho que nunca vou gostar. ok, pode ser que um dia.. não: corações por todo o lado, rosinhas nas mãos dos senhores que hoje, so por hoje, são tão romanticos, musicas romanticas em todas as radios, e jantares romanticos, restaurantes lotados de casaisinhos... e, hoje faltou uma figura importante neste dia tão romanticamente cheio de rosas e rosinhas: o "kéfro"! definitivamente, não. este dia não. apesar de gostar de jantares de soteiras/os. este dia não.

13.2.05

tudo em nós era igual...

Éramos duas pessoas que tinham um
segredo de palavras. Éramos duas
pessoas que, ao longe, tinham
partilhado um instante. Éramos duas
pessoas.

Tudo em nós era igual.

José Luís Peixoto in "Uma casa na Escuridão"

"guerreiro menino"

Sem querer entrar em qualquer tipo de acções partidárias, há uma coisa neste feroz tempo de campanhas repletas de agressões e boatozinhos que me faz querer escrever. Ou seja, estou-me a referir à música que abre a campanha do PSD para estas eleições. Música tal que me fez rir perdidamente e pensar se seria campanha de outro partido, a gozar, ou não. depois, fez-me pensar como seria bom se as nossas preocupações se resumissem às citadas na dita música (mas... será suposto ter pena?). e por fim, já sabendo que a música tinha sido realmente escolhida pelo próprio partido, (e não, não estão a gozar...) "comovi-me" com o quão poético é o nosso "guerreiro menino", quase merece miminhos no proximo dia 20... :)

para quem ainda tem dúvidas sobre a inclinação política, está aqui um link porreiro que pode ajudar, mostra-nos a nossa "orientação"- esquerda ou direira, liberal ou autoritaria, a bússola política.

Riam, chorem, whatever... mas vão votar! Cá vai ela:


Guerreiro Menino (Um homem também chora)

"Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura
Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem refeitos
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Pois ama e ama
Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz"

11.2.05

pico


há la sitio onde tenho saudades de pisar é este, algures na parte oeste da montanha do pico.

Quando fui aos açores, quando fui para os açores, fui sem conhecer nem imaginar para o que ia. surpreendente. hoje sei que conheci por aquelas terras o verdadeiro sentido da palavra Natureza. ou alguma coisa parecida. coisa intacta. matéria nobre, intacta, (divina?) pura. tenho muitas saudades dessa viagem, tantas. ainda oiço nos dias mais açoreanos, o barulho do silêncio daquele mar naquela terra naquele som tão silencioso de mar; as vezes quando fecho os olhos ainda vejo as cores que só existem la, cores; ou sinto nas mãos que tremem saudades a terra de memorias e vulcões, o mar. aquele mar. se há sitio onde me espraiava "eternamente" seria por ali, algures entre o cimo e o baixo da montanha mais alta de portugal, virada para o sol a derreter-se no mar, a misturar-se nas nuvens açoreanas tão nuvens e tão especiais, perder-me na terra do nunca verde verde e no mar que não acaba. de braços abertos.

8.2.05

gente

vim só dizer que... gosto de voces!!

gosto TANTO de pessoas, de GENTE!

há situações em que me faço lembrar a minha avó. não conheci pessoa que gostasse mais de pessoas na vida. e cá estou eu por vezes, embasbacada com o meu gostar, de "pessoas"! pessoas, as que passam por mim na rua, ou os amigos que são um bocadinho "d'eu mesma", as que estão no outro banco do comboio, as que dormem nas ruas frias ou as que estao nos melhores hoteis, as que são felizes ou as que sofrem um bocadinho, ou muito... pessoas, de todas as cores, idades, jeitos, gestos, pessoas. dou por mim com um pedacinho do que foi a minha avó e as pessoas da vida dela. a sofrer com eles, ou feliz por eles, a querer ajudar, ou a ser vencida pela preguiça... pessoas!

fico com vontade de abraçar o mundo...

7.2.05

o poeta

"Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia"...

Vinicius de Moraes

5.2.05

há dias em que gostava...

... de ter nascido no meio do sambódromo do rio!!

há dias em que gostava que a vida fosse só

S A M B A, S A M B A, S A M B A, S A M B A, S A M B A,
ú-ú-úúúú-ú ú-u-úúúú-ú ú-úúú-ú-úú ú-ú-úúúú-ú ú-ú-úúúú-ú (ler no ritmo do samba... :))


RIO e mai nada que já é tudo, muito samba e muita animação!!

há dias em que gostava....

4.2.05

cortar raízes.

cortar o cabelo é uma lufada de ar fresco na vida. acontece-me sempre. mesmo quando fica mal cortado. mesmo quando no cabeleireiro esta uma criança aos berros ao meu lado. e sabem tão bem os dias a seguir a cortar o cabelo, é como se mudassemos uma parte de nós só por mudar um bocadinho o fisico e como se mudar a rotina e o habitual fosse uma sensaçao nova, nos mudasse tambem a nós. como quando tiramos um dia especialmente dedicado às coisas terra a terra da vida (chamadas futeis) e vamos comprar imensas roupas e coisas novas só para mudar o visual. um dia diferente. para haver uma rotura com os dias anteriores e no fundo haver um impulso permante à nossa não-rotina. como se os outros reparassem nas nossas roupas novas: se eles só reparam na nossa cara nova. é tudo uma coisa nossa. de cada um. a nossa constante mudança e motivação. se pudesse, acho que ia adorar cortar o cabelo todos os dias, para experimentar sentir assim sempre, um dia diferente, uma imagem diferente da vida no espelho, ar fresco e cortar raízes. e como o povo adora cortar raízes!!

jack johnson...


...finally in lisbon! :)

3.2.05

maria, maria

ontem aprendi mais uma expressão popularusca com os nossos velhinhos.... :)

"maria maria, sua cara de enguia!"

eheh

2.2.05

upa upa II

Kunami (fresquinho)

chama-se kunami. é um fruto. pode ser confundido com ameixas podres,
mas só por quem tenha pouca cultura frutesca!
é kunami, do bom, com "k"!
kunami é um fruto tropical muito raro, por isso é que o preço upa upa, puxadote...
kunami sabe mesmo a kunami, daí o nome.

1.2.05

viajar

"Uma das pesssoas que me ensinou a viajar foi a minha mãe. Ensinou-mo com uma simples frase. A única vez que viajámos juntos, fomos a Roma. Estávamos sentados uma tarde na Piazza Navona, o seu local preferido de Roma. Ela bebia um dos seus inúmeros chás diários e há mais de uma hora que ali estávamos, sentados a comtemplar a beleza perfeita da praça...Mas estavamos ali há demasiado tempo, era a primeira vez que vinha a Roma e tinha, logicamente, alguma pressa de seguir caminho e ir ver outras coisas. Sentindo a minha impaciência, a minha mãe disse-me: "Miguel, viajar é olhar". Só o olhar não mente, porque todo o real é verdadeiro."


Miguel Sousa Tavares in "Sul"

grito II

tenho andado constipadissima, daí o grito, o desespero.

o g r i t o s e r v i a p a r a l i b e r t a r t o d o o t i p o d e v i r i n h o s i n s u p o r t a v e i s q u e s e a p o d e r a r a m d a m i n h a p e s s o a e m e p r e n d e r a m à c a m a n e s t e s d i a s - a t s h i m ! . . .

mas obrigada a quem se preocupou. até porque há gritos gritos que são assim gritos desses e que acontecem tantas vezes. acho que entre amigos, nunca estamos completamente ausentes, só um bocadinho menos presentes, falta de tempo, ou falta de tempo disponivel... atshim!...
Lembrei-me de uma música que o que tem de depressiva tem de boa. adoro, que me faz lembrar Marvão de alguma maneira, que se chama Grito, e que é também ela sobre esse grito, grito de gritar.


"Meu Deus, se nos velas
Diz-nos o que é que nos espera
E porque é que o sol demora atrás da colina escura
Anda dar luz ao caminho que a gente assim desespera
É como sonhar sozinho
Como se o mar fosse raso
E o céu não tivesse altura


Sempre no silêncio
Dá gozo a voz deste chão
Mas inda me dói a alma
Na dor do corpo e das mãos
Tenho medo deste frio
Que à noite sinto no peito
Como se andassem cavando
Como se andassem fechando
Buracos de solidão
A gente não sabe
O que há depois do horizonte
A gente é um vulto curvado
Com uma sombra defronte
A ouvir rumores na distância
A sentir dentro um segredo
Feito de sonhos calados
Feito de braços fechados
Num poço fundo de medo

Anda dar luz ao caminho
Que já nos dói a demora
É como sonhar sozinho
Um sonho que nunca vinga
Num grito que nunca chora"

Mafalda Veiga

31.1.05

estrada



estrada como a vida fugaz. momentos eternos, na estrada.
estrada dos detalhes mágicos da vida.

grito

( Se eu gritar... alguém me ouve ? )


"Faz chegar até mim as palavras que me aproximam de ti
põe também na minha boca esses lugares (...)"

Miguel Patricio

“podemos ser realistas do irreal e figurativos do invisível”

balthus

30.1.05

os dias iguais

a D. Maria espera impaciente o tempo que não chega. tem os dias contados e sabe de cor as dores que a perseguem. Acordou cedo, fez questão de acordar os colegas todos do lar, com sorrisos e boa disposição. a D. Maria nunca chora: é a pessoa mais alegre do lar. só chora baixinho e nunca chora, porque não. porque é forte. fui visita-la. a D.Maria sabe que pertence àquele lar como a vida lhe pertenceu inteira. estava quieta, sentei-me por ali onde a luz pousava devagar. a D. Maria falou-me dos sonhos que ainda tinha e chorou, como se nenhum pudesse acontecer no tempo que hoje lhe foge pelas mãos. chorei com ela. pensei: a vida é tão fugaz. quanta ternura desperdiçada. nunca noutra vida teremos tempo para viver o que falta no nosso tempo da nossa vida que é hoje. pensei: a D. Maria pensa que a vida hoje são dias de tempo que não passa e voa sem mudar as horas que lhe fazem os dias iguais. A D.Maria sabe tão melhor que eu como se faz para acreditar que hoje é que conta. que não há sonhos que não possam existir em tempo de nós. eu olhei-a com vontade de a abraçar e a levar de mãos dadas a todos os sonhos que ainda lhe são pequeninos de vida. Pensei: se a levar a todos os sonhos a vida acaba. Nenhum olhar lhe fará melhor do que aquele que lhe diga um dia, um dia... um dia D.Maria, um dia, tenha fé!.. . Disse-lhe em silêncio o quanto gosto dela e de a ver fazer os dias dos outros menos iguais aos dias que são dias tão grandes como os que lhe enchem os dias. a D.Maria acordou sorridente, os outros quietos. quietos. acordaram para as batalhas dos dias iguais. uns, dizem coisas que nunca percebo, e isso doi. às vezes olham com caras estranhas e isso doi. não me faz so lembrar os dias iguais dali, mas também os dias iguais que a D.Fernanda teve com gente maluca que nunca chegou a perceber. pois é, tive momentos com a D.Maria em que me desliguei das suas historias e saudades e vida e corri lembranças, a minha memoria memoria. mas o medo não tinha razao de ser: não há dias iguais, nem histórias iguais, nem cheiros iguais em pessoas iguais. tudo é parecido, efémero, fugaz, igual, corrido, antigo. a D.Maria diz-me para não me preocupar nem me assustar com quem me olha estranho dono de nenhum olhar, é normal. é como se a vida lhe fosse um milagre contínuo, e a ninguém devesse aquilo em que acreita. Eu contra o mundo. Hoje senti saudades e apeteceu-me escrever-lhes. gratidão talvez? Como se um dia que fosse hoje lhes pudesse dar os sonhos que lhes fazem os dias acordarem doces devagar iguais iguais.

28.1.05

parabéns a ti

amizade saudade abraço
grande azul olhos azuis azul mar praia riso
noite noite noite lua amizade.
loira as loiras as outras loiras.
viagens descobertas olhar.
vida morte amizade saudade abraço perto longe perto.
eu pequenina tu grande nós espelhos vida cumplicidade.
jogos. noite noites amigos.
promessas esperanças compromissos.
cor
namoros rapazes rapazes rapazes amigos.
cartas pita s.joão telefone torres mar piscina sol verde.
fotografias imagens memórias futuro nós amizade.
música as nossas
maluquisses copos cumplicidades.
crescer ficar grande guiar viajar postais férias almograve mar.
amigos noite dia sol.
liceu aulas intervalos namoros faculdades.
telefone café cafés abraços.
pais livros telemovel tempo reiki mãos pés grandes.
sorrisos. sorrisos. sorrisos. olhos.
imagens jantares quarto quarto cheio cheio nós amizade.
sempre.
tu grande.
dias coloridos.
contigo, sempre.
parabéns.


como é que consegues fazer o mundo tão especial à tua volta? (obrigada por existires.)


és essencial na minha vida.
Parabéns a ti.


24.1.05

lugar "meu"




um dos "meus" lugares.

Enquanto ouvia Caramel, da Suzanne Vega, fui indo para um ambiente que me era familiar: quente como a harmonia da música, doce de amigos. Lembrei-me deste lugar dos sonhos, das estrelas. há uns dias, ia no carro para a faculdade e fui exactamente parar a este lugar: enquanto o caetano sussurrava, "mimar voce(...)".

há ambientes que são imagens e sons, há imagens e sons que são memórias que são músicas e músicas que são histórias e histórias que são as imagens do ambiente das memórias das músicas dos momentos essenciais das partes mais felizes de qualquer coisa que fomos. que fomos. que somos.

23.1.05

cadê o "mundo"?




"o homem só se apercebe, no mundo, daquilo que em si já se encontra;
mas precisa do mundo para se aperceber do que se encontra em si (...)"

Rui Chafes

antes e depois

mudei um bocadinho o meu estilo de vida desde que tenho um blog onde gosto de escrever, sobre qualquer coisa, o que quer que seja. agradeço vivamente à Rita Ferro Rodrigues, por me ter ensinado a gostar de blogs, a gostar da parte de partilhar com o mundo as nossas coisas, mesmo as mais intimas, a Rita ensinou-me a gostar ainda mais da escrita desprendida dos dias. -entre outras coisas. depois dos primeiros tempos na "blogosfera" sinto-me um bocadinho diferente: há uma reacção nova que tenho em relação às coisas, e boa: filtro melhor aquilo que me acontece no dia a dia, como se tudo o que vivesse fosse motivo de escrita, e é, quase- ou pode ser, dependendo da maneira como se (des)escreve. o maior problema é a disponibilidade dos dias que correm. dias que correm no verdadeiro sentido da palavra- porque os dias têm corrido a correr ultimamente.
antes de ter o blog, nunca pararia diante de uma criança na rua a inventar palavras para descrever o seu sorriso; nunca pensaria que o lugar da luz do dia é a vida, a praia em vida crua; nunca iria pensar em descrever o desenho perfeito da perfeição em palavras simples; nunca saberia como dizer diariamente àqueles que gosto, que são parte de mim, assim como nunca saberia dizer àqueles que mudaram a minha vida, por pouco que seja, o quanto lhes estou grata por isso; nunca iria pensar em descrever a solidão da velhice ou a dor dor da morte nua, ou, num acto de coragem escreveria para mim tais coisas, o que nunca seria vivido da mesma maneira; ou seja, o blog foi, sem duvida, uma marca importante, um lugar seguro onde me tenho inteira, onde o mundo me tem inteira. vou continuar, porque enquanto estou aqui, sou feliz, mesmo a descrever as maiores babuseiras. obrigada a quem me tem lido. (ja sinto saudades de escrever) os vossos comentarios são abraços abracinhos- e, saber que de alguma maneira vos entro pela casa a dentro -amigos- tira-me um bocadinho das culpas de andar tão sem tempo para estar com voces. saber que também vos leio a alguns nas nossas conversas de vizinhança, e que por aí nos vamos tocando entre os fugazes cruzamentos da amizade no nosso tempo.

20.1.05

lugares que são abraços

aprendi contigo que há lugares que são como abraços. tenho a certeza que amanha vais inaugurar mais um abraço no mundo. feito por ti, contigo lá. tu e nós. daqui, imagino as coisas espalhadas pelo chão, coisas e pessoas (como em casa da té), a ella fitzgerald lá ao fundo a cantar só para nós. um dvd que se revê. nós a chegarmos devagarinho e de repente estarmos todos e faltar alguém. quando fui à tua casa, antes de ser aberta oficialmente ao publico, tinha cheiro a tinta e paredes brancas, pintadas de cima a baixo, com pressa. tinha um armario por forrar, não sei porquê mas tenho a impressão que é das partes mais bonitas da casa, agora. pensei: a casa tem momentos que se deixam acontecer. a casa tem momentos mais antigos que as próprias paredes que a suportam. a casa tem uma magia so dela, memórias cravadas no chão e em toda a parte, e futuro escrito nas salas nascidas de ti. gostei das namoradeiras, à antiga. quando fui, imaginei como seria habitada por ti dali a uns tempos. imagino como estará agora. a casa que é nova e antiga e que é tão tua que não podia ser de outra pessoa. agora, adivinho: tem cores quentes e chão. sabe a abraço.
ensinaste-me que há lugares que são como abraços, como se uns pudessem ser e outros não. e é assim com quase tudo. mas há uma coisa que não sabes, tenho a sensação que todos os lugares que são teus não podem ser outra coisa senão abraços, apertados no fundo das melhores memórias. Boa sorte.

19.1.05

(boa noite...)

"boa noite, amigos, companheiros, camaradas
a vida é feita de pequenos nadas."

Sergio Godinho, in "Pano Crú"

18.1.05

memórias II


Laughing as I pray

"As I'm walking through these streets again
I'm crawling
And as I try to live my life again
I'm falling down

Can you pick me up
Can you let it stop
Can you make it go away

Won't somebody help me, is it hard
To let me find my way
Won't somebody love me (for a start)
I'm laughing as I pray

Where is the road
I must look at the road
I must pray a little longer
Or laugh a little more"

K's choice

17.1.05

um abraço

o pai da ana era grande. tão grande que não cabia nela o orgulho. ainda a vejo hoje a contar-me estorias de quem conviveu de perto com fernando pessoa, orgulhosa do pai maior que resistia ao tempo e a tudo. ainda a vejo a indicar-me uma revista onde lhe aparecia o pai, grande e bonito, que li e saboreei como uma historia de vida ternurenta e cheia. acho que o orgulho é a unica coisa que sobra e que aumenta neste instante. talvez todos os lugares por onde tenham vivido as inesqueciveis memorias de pai e filha. a ana herdou isso do pai: é também uma pessoa grande, capaz de nos orgulhar até não cabermos mais. imagino-a a receber as naturais lamentações, e doi-me ainda não lhe ter dado o meu abraço, sem lamentações, para não tirar o sentido da palavra, de tanto ser ouvida... doi-me sabe-la triste. triste por ter perdido essa referência, essa vida que transbordava vida e estorias e estorias e memorias. a ana é uma das pessoas da minha vida, uma parte da familia que escolhi. e talvez por isso aqui escreva, porque a adoro. porque me lembro que os açores lhe trazem os momentos mais marcantes da vida, com as ilhas em pano de fundo. este foi mais um, daqueles que não se esquecem nem se apagam, para um tempo que é sempre. aninhas, um abraço do tamanho do mundo- que caiba em ti o orgulho e os valores e os leves contigo para sempre, para que nunca (mesmo quando duvidares) percas esse brilho que é so teu.

16.1.05

o lugar da luz do dia



Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insectos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insectos,
e a distância das aves, que doía.
Se os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.

Fiama Hasse Pais Brandão (in «Cenas Vivas», Relógio d’Água)

complicar a vida

aprendi aos 20 anos, e numa oração, que complicar a vida é uma coisa boa. há umas semanas, lá na asul (falo na asul outra vez porque este post vem em seguimento do anterior...não, não estou viciada no assunto...:P) enquanto se lia uma oração, dizia-se pelo meio que "é preciso sair de nós mesmos, complicar a vida, perdê-la por amor de Deus e das almas...". ao principio discordei totalmente com esta frase, ou seja, ela veio confirmar-me que a igreja é mesmo um "assunto complicado" e que gosta mesmo de nos complicar as vidas. depois explicaram-me as entrelhinhas desta frase e, mais tarde, fez todo o sentido. deixando de lado (sem querer substimar...) o conceito "igreja" e aplicando esta frase ao nosso (de qualquer tipo de crente) dia-a-dia, percebe-se que complicar a vida são todas as pequeninas facilidades que temos de abdicar por sentidos mais trabalhosos e, que, por serem mais trabalhosos (ou por darem mais luta), nos vão dar melhores frutos. Ou seja, (não sei se os meus leitores (lol) concordam comigo ou não, mas eu acho que faz sentido assim, e nunca tinha pensado por este ponto de vista.) o facto de sairmos de nós mesmos e complicarmos as nossas vidas é importante: sair de nós mesmos sempre achei e sempre tive consciência que só pode fazer bem, mas aqui o importante é sair das nossas facilidades e dos nossos comodismos e não optar pelo caminho que à partida parece mais fácil: nem sempre o que parece é. e, fazendo assim um exame de conscência, dá para perceber que na maior parte das vezes aquilo que nos deu mais trabalho e nos trouxe mais complicações, são os nossos maiores orgulhos e as nossas maiores alegrias. no fundo, só o tempo é que nos faz perceber estas coisas com a nossa própria experiência... e mais, a preguiça é a maior inimiga destas complicações que afinal são boas: e eu, sofro de perguiça em estado grave.

15.1.05

sobre a asul

mas das ultimas vezes foi diferente. fomos com pressa na mesma, como sempre, mas sem medo. eu fui sem medo. a asul não morde. acho que já conhecemos de cor as orações e as coisas duras e leves e fortes e frágeis que nos vão dizer: aqueles que acreditam mais do que nós. Mais do que eu. gosto tanto de ir, confesso. gosto ainda mais de ser do contra. gosto demasiado de pôr tudo em causa, num dos ambientes mais seguros e confiantes e crédulos que ja conheci. Às vezes sinto-me uma aberração: por andar ao contrário. por acreditar noutros conceitos diferentes- que na essência são tão iguais- sinto que eles não sabem, e sinto que eles sentem que eu não sei os que eles sentem: e isso é fantástico! às vezes há vezes em que fico só a ouvi-los, e ouvi-los só é bom. sabe a abrigo. eles são certos nas coisas deles, pequeninos e grandes, fazem coisas de gente boa: constroem mundos melhores. eles são pequeninos como eu, cheios de vontades que se tornam reais porque somos pequeninos e não distinguimos os sonhos da realidade. não há maneira de ser mais feliz do que sermos criança para sempre. às vezes, há vezes em que me confundo com eles. acho que há qualquer coisa nessas vezes que me enche,que faz sentir melhor quando preciso. mas é mais do que essencial pôr tudo em causa. é demasiado forte para se aceitar sem saber bem o que é: esse conceito esquisito de religião que sabemos existir certo desde sempre. até sermos crescidos e pensarmos e duvidarmos de tudo. até sermos ainda mais crescidos e voltarmos atrás nas roturas que fizemos quase sem pensar. (re)começar. Quero começar a ajudar os outros -no verdadeiro sentido da palavra, preciso disso para viver melhor: como um elixir, ou, uma espécie de missão. escrevo para me afirmar que 'tou lá': mesmo que me confunda cada vez mais com eles (os grandes que são pequeninos) ou que me perca das suas teorias tão certas. a asul tem-me feito bem. gosto deles e gosto de os ouvir. há uma energia maior no espaço vazio que sobra de nós: sente-se à distância. estar perto tem-me feito acreditar mais num mundo melhor. ter a certeza que existe: e tão perto do perto que somos nós.

não me vou esquecer

não me vou esquecer. não me vou esquecer desse sorriso. não me vou esquecer nunca desse sorriso que ilumina as ruas por onde passas. as ruas por onde passas seguro: seguro desse mar frágil que te rebenta por dentro. não me vou esquecer. tens um sorriso sorriso que me faz sorrir com ele. um sorriso forte de quem é forte frágil no avesso. perco-me de vontades de me perder nesse sorriso. só por ser um instante- o teu sorriso por dentro: forte forte como tu por fora. há uma coisa que sei que não me vou esquecer nunca (por mais que a vida me faça esquecer dos sorrisos que iluminam todas as ruas da vida): esse sorriso sorriso eterno sorriso em mim.

12.1.05

do outro lado


fotografia margarida delgado

há cor do outro lado da rua. conheces? é cor de gente misturada. das casinhas ao monte com ruelas descalças, em casa.
é cor de terra.
não é cor nada. chama-se cidade. a minha.
tem o sabor da chuva e da terra molhada, consigo vê-la daqui.
do outro lado está a cidade no dia que nasce, parada. vazia de gentes. só cheia de si.

11.1.05

a familia que escolhemos

Hoje, só hoje e só por ser hoje e porque sim, queria dizer ao mundo que vos adoro: aos meus amigos.
nunca é demais agradecer ter-vos perto. um dia ouvi alguém dizer que os amigos são a familia que escolhemos. achei fenomenal. porque a maneira de gostar é mais ou menos a mesma, depende dos casos. muda a forma ternurenta como temos obrigatoriamente de nos mimar todos os dias. mesmo que só em pensamento.
quando o tempo aperta surgimo-nos nestas alternativas esforçadas e pouco ao nível de dizer os sentidos de nós. as nossas maiores forças: amigos. digo, hoje: adoro-vos.

os tropeços...

ok ok arrependi-me logo de ter sido tão violenta num dos meus ultimos posts... mas estava mesmo enojada.
tenho aprendido todos os dias a fazer coisas boas, a cada dia melhores: ou, a cada dia mais. muito mais do que a importância das palavras, a importância de sermos connosco. muito mais do que a importância do pensamento dos outros, a nossa consciência. tenho aprendido e tenho tido imensas lições assim completamente de graça, o que não quer dizer que já consiga dominar a parte de só fazer coisas boas, ou dominar-me e deixar de ter os ataques impulsivos que me constroem. não é fácil... é um caminho que se faz todos os dias. e vou tentando melhorar.

10.1.05

Hora

(para melhor o ambiente. :) e porque hoje vi o mar e cheirei-o e senti-o. a pessoa que nos seus versos tão bem o descreveu: )


"Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar."



Sophia de Mello Breyner Andresen

se o nojo existe...

tenho um professor que é um nojo. assim ao longe até disfarça. ao perto também, tirando algumas escapadelas a uma realidade estranha, algum tom esverdiado no seu cabelo a atirar para o grisalho... até podia ser uma coisa natural e indiferente, mas agora com uns meses de convivência, acho-o um nojo por si só, ou seja: ele não precisa de abrir a boca para ter os reflexos exactos de alguém que me "repela"... (como diz o joão: argggh!)

hoje tivemos uma aula na escola d. luisa de gusmão, ficámos numa sala que tinha um quadro branco, daqueles onde se escreve com marcadores. o professor queria desenhar um corte e não tinha a caneta especial para o quadro, remidiámos com um marcador normal (pois, deu asneira...). e escrevo sobre isto, (que é tão pouco interessante) porque hoje foi atingido o cumulo da nojisse: o senhor arquitecto tão cheio de formalidades, como quem faz a coisa naturalmente, cuspiu para o quadro. (mas uma cuspi "daquelas", deixando-se até ficar com umas pinguinhas na barba...) naturalmente. "talvez estes riscos só saiam com alcool, ou talvez com um paninho humido, ou talvez com... cuspo?!" e vai disto. conseguiu-me por mal disposta até agora.
ah pior: os riscos não sairam, só borraram um bocadinho. (nojooo!!)

(Ainda bem que partilhei isto com vocês- estou muito melhor agora.)

9.1.05

memórias




conselho de ano novo fora de tempo

"eu sou a parte do mundo que eu posso mudar."

anónimo

8.1.05

o acaso

ultimamente tenho vivido acasos, talvez sejam todos os mesmos de sempre, mas desta vez reconhecidos como acasos que são. O meu novo projecto vai-se chamar acaso. vai-se basear no acaso. ainda não sei bem como, nem que forma física lhe vou dar (esta é a parte que mais me custa fazer). Vai nascer do acaso porque ele já nasce do acaso mesmo antes do acaso acontecer. esta coisa de fazer projectos é uma loucura, as ideias surgem-nos em todo o lado e de todas as maneiras, fragmentadas. temos de trabalhosamente as decifrar e as fazer surgir em forma fisica, arquitectónica. sem que nunca se perca o sentido conceptual que o fez criar-se desde o principio da sua (tentativa de) existência.
Acho que no fundo o que quero é fazer um link directo da arquitectura para a minha vida. porque o território do novo projecto é um acaso fantástico na cidade, é um tropeção que nos abre uma janela com uma vista espectacular de lisboa. mas melhor do que isso é o facto de por trás da janela e por trás nós sermos só nós e a janela e nós em nós em silêncios de nós. o facto da natureza ter ajudado a criar barreiras que nos proporcionam lugares como este, onde se respira paz. (claro que o programa tem acasos feitos por pessoas estranhas com ideias estranhas que eu acho que nunca vou compreender.) e o link aparece porque tenho vivido acasos pessoais, que me têm fortalecido e enfraquecido e que acima de tudo me têm feito abrir os olhos para determinados assuntos, um deles é este de saber e acreditar sempre que nada acontece por acaso. e tudo o que recolhes dos dias são frutos para sempre, nada por acaso. acasos: tropeções surpreendentes que alteram minuciosamente o curso da vida de qualquer pessoa. só temos de os fazer importantes em nós e decifra-los. aceita-los 'with open arms' e tirar o melhor partido possivel. fazê-los nascer no mundo certo, há hora certa, e aprender a sua existência.

6.1.05

supertições

quando um gato preto atravessar o teu caminho,
significa que ele vai para algum lado.

5.1.05

sol amarelo

a
primeira
coisa
que
mais
gosto
de
saber
quando
acordo:
sol-
amarelo!


4.1.05

vai andando

vai andando que eu ja te apanho no caminho. a estrada faz-se bem. não tenhas medo. vai andando, passo a passo vais descobrir sozinha uma vida desconhecida, se te faltar rumo, eu ajudo-te. sigo-te os passos. como uma sombra, prometo. vou-te seguir para me guiar, para me descobrir nos teus caminhos. para amparar as quedas inevitáveis, sigo-te o rasto como uma sombra, na amizade. vai andando que eu já te apanho, se não precisares de rumos certos, fico no nosso silêncio, que é nosso porque é o silêncio dos amigos. e um dia, lá mais para a frente na nossa estrada, vou segurar no teu filho a ser madrinha, porque é um menino e eu sei que vai ser. vou-me orgulhar como me orgulho de ti e com a mesma força com que te sigo os passos inseguros dos dias fortes. seguros. vai andando que eu sigo-te os passos. fico por perto, espero que não tenhas medo de estradas desconhecidas, são a nossa força. vai andando...

3.1.05

esquinas

naquela mesma esquina onde se encontraram, perderam-se. passaram anos. anos que duraram a vida. anos curtos que foram anos. e anos anos que foram curtos e vida. numa esquina de tempo: o amor a cruzar-se como as vidas que correm por esquinas e esquinas de ruas e ruas. por vidas que se cruzam desconhecidas, em olhares que são o tempo solitário. encontraram-se na esquina, inesperada, quase chocaram- chocaram a vida e os olhos e dentro deles a vida, e os olhos, a vida. naquela mesma esquina onde se encontraram, perderam-se. passaram anos. o amor a ser a vida e a esquina a ser o desenho das suas histórias. o desenho das memórias mais felizes. as suas certezas mais certezas. perderam-se. para sempre, ou até uma esquina qualquer no fim de uma rua qualquer, naquela mesma esquina onde se encontraram: deserta só para eles. (porque o amor é assim, um deserto deserto de nós.) esperam a vida roubada em todas esquinas de todas as ruas, o amor. o que os fez eternos cruzados. amor que os fez viver. naquela mesma esquina. vivem e esperam, esperam, esperam a existir. o inesperado que mais esperam, nas esquinas das esquinas da vida.

2.1.05

Dilema

há dilemas que se mantém de ano para ano:

"O que muito me confunde
é que no fundo de mim estou eu
e no fundo de mim estou eu.
No fundo
sei que não sou sem fim
e sou feito de um mundo imenso
imerso num universo
que não é feito de mim.
Mas mesmo isso é controverso
se nos versos de um poema
perverso sai o reverso.
Disperso num tal dilema
o certo é reconhecer:
no fundo de mim
sou sem fundo."

Antonio Cicero

30.12.04

só porque sim

na televisão, dava a Rita Ferro Rodrigues à conversa com o Jorge Palma. Fiquei ali. Como se estivesse num café a assitir familiarmente à conversa entre dois amigos. Gosto demais do Jorge Palma, da simplicidade como encara a vida tão cheia de tudo. Gosto principalmente da maneira genial como a descreve. Como escreve a descrever os sentimentos essenciais. As coisas que mais doem contadas da maneira mais fácil. Gosto do só. das "duas almas em guerra", da realidade crua que as faz existir. do que doi e do que fica. gosto de ouvir repetidamente o cd ao vivo no villaret, de ouvir o Jorge contar histórias do filho, rio-me sempre na parte do "Vicente hoje agradecer ao registo civil não ter deixado que ele se chamasse Castor". O Jorge Palma é genial e assistir aquela conversa deu-me mais uma vez provas disso, só porque sim. Só porque o Jorge é simples e tão complexo nas palavras. (E ainda bem que existe gente assim.) Porque gosto de o ouvir e porque ficava naquele café e naquela conversa e naqueles amigos o resto da noite só a aprender as coisas mais simples da vida.

29.12.04

fim do dia



há uma hora em que tudo sabe bem. essa hora não é hora. é cor.
nós chamamos-lhe o fim do dia-
gosto muito desta hora que não é hora, e é cor.
cor do céu que dura em nós o tempo que quisermos.
a cor que viaja por todos os lugares, e não é hora e é cor. a hora dos dias grandes de verão, ou a hora dos dias fugazes de frio. tem a cor que dá cor às coisas, que se espalha e que faz a cidade acordar de um dia cansado, amarela, laranja, azul, amarela, amarela, cor. cor do céu e das coisas. paredes com a luz da cor da cor da hora que não é hora e é cor, fugaz, para sempre.

28.12.04

por vezes.

por vezes
(mas só por vezes)
consigo esquecer-me
que, a oriente
do oriente é sempre,
sempre, ocidente
(às vezes).

Alexandre monteiro

27.12.04

correntes




nós-presos
entrelaçados
em nós
(todos)
nós-presos-
correntes de nós-mundo.
no mundo- o mundo. fugaz.

26.12.04

paraíso ao contrário


...e eu aqui quentinha a escrever sobre a paz no meu natal.
Faz medo pensar na força da Natureza e das nossas coisas viradas contra nós de repente. Estar algures espraiado a descansar da vida sem mais nada e ter tudo e o mar vir com uma força estranha e levar-nos com ele, ou roubar-nos dos braços quem gostamos. nós: imóveis, impavidos, incapazes, pequenos. (e há sempre um português em qualquer lado do mundo.)
Pensar que é realidade e que aconteceu. Que são mais de 11 mil, os que já morreram.
Pensar que tudo é demasiado efémero para as nossas certezas pequeninas pequeninas serem certezas certezas. Medo dos paraísos que a Natureza nos deu e que amamos virados com força contra nós. Esmagando-nos. Tirando-nos a vida aos bocadinhos. nós: imóveis, impavidos, incapazes, pequenos.
Até nos matarem.

mais um.

o meu avô dá-me abraços apertados. costumo ficar demorada dentro deles, como se pudesse ser para sempre se fechar os olhos, como se dentro deles encontrassemos os dois aquilo que procuramos.
Estava a escrever um post e antes de o pôr no ar, andei por aí a ler os vizinhos: nomeadamente as coisas boas da té. Encontrei tantas parecenças em algumas coisas que dicidi não por o meu no ar: seria repetir palavras da mesma familia, reescreve-las, com a falta que não queria de algumas partes. Modifiquei-o.

A té chamou avó leoa à avó dela.
E se me perguntassem como é que foi este Natal para mim, foi a falta da minha "avó leoa". Não foi mais um Natal, como queríamos, foi diferente. Mil vezes a falta da minha avó. O silêncio da falta. Este Natal foi feito de nós a tentarmos fazê-lo igual ao que já foi. Teve alguns sons de sempre, alguns cheiros de sempre, perdidos entre bocadinhos de nós. O bacalhau de sempre. Os doces que fizemos e comprámos com vontade que ficassem iguais aos da avó. A minha avó fazia-os como ninguém. Eu sei. nunca gostei muito do sabor dos doces de Natal, mas sei que os melhores eram os da avó. Lembro-me da avó fazer doces especiais para os netos que gostavam pouco dos doces do Natal. Lembrava-se sempre de todos e dos gostos esquesitos de todos, adaptava as tradições a serem novas só para nós. Neste Natal, os sons ainda foram quentes, como dantes: a lenha a queimar contra a chuva fria la de fora. a casa embalou-se com a Norah Jones: do principio ao fim. Quando fecho os olhos, consigo ver o som do Natal e o cheiro dos reflexos da lareira nas coisas.
É engraçado porque também fiquei sentada no sofá, a ver passar as vidas com pressa. Com o meu avô do lado esquerdo, a tentar fazer-me lolós e a rir-se. (na nossa famlila, temos quase todos e sempre esta coisa dos lólós e chatear imenso os outros até as piadas estarem gastas. Faz-me lembrar algumas das coisas dos gatos- fedorentos que nos encheram a tarde do Natal de risos. ) E eu a rir-me tanto por dentro por estar ali com ele inteira e sermos só os dois. Os dois e o mundo com pressa. O meu avô a falar-me da minha avó e eu a ficar calada e a querer chorar saudades. Eu a tentar dizer palavras e elas a não sairem, a parecerem ridiculas demais para sairem. Eu a ficar calada e o meu avô a chorar. Eu a fazer festinhas ao meu avô e as lagrimas a serem fortes. As lagrimas, fortes fortes. O nosso silêncio. Eu a dizer: avô, não vamos pensar na falta. Acabamos sempre a chorar e as palavras a não existirem. vamos desligar-nos ca de dentro e ver o mundo lá fora de nós, temos sempre razões para rir: alguém que torpeça, alguém que diz disparates, alguém a cantar desafinado, alguém com vontade de abrir presentes, alguém com pressa sem razão. o meu tio e as suas piadas, sempre. o meu irmão a dar presentes à minha mãe, que são para ele. os gatos fedorentos ou os programas de "humor" à portuguesa para os mais idosos.... alguém com vontade de rir na ternura, como nós.
Não vou falar muito da parte dos presentes, não interessa. mesmo que os meus pais tenham sido uns queridos e que eu fique sem palavras só de pensar no esforço que fazem para me dar aquilo que o meu curso infelizmente quase me obriga a precisar.
O importante neste Natal, mais um Natal, foi a parte de ficar, ficar, demorar com a familia. dar abraços e ficar, aproveitar tudo e todos e espremer bem as emoções. Rirmo-nos de nós e das nossas coisas tão nossas. Desligar o telemovel por dias. desligarmo-nos por dias que foram curtos em nós.

definição I

saudade:
lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou a possuir;
pesar pela ausência de alguém que nos é querido;
nostalgia.

25.12.04

mahnahmahnah



encontrei por ai, sempre-" mahnahmahnah "- que bom, que saudades...:)

24.12.04

rabanadas e presentinhos

ando desinspirada.
Acho que a culpa é do espirito natalicio (:compras, compras, compras) ...
Desejo um optimo natal, cheio de rabanadas e presentinhos a todo o mundo!
Prometo, (a quem me gostar de ler...) que vou voltar em força nos meus devaneios, logo que passar esta fase das correrias entre centros comerciais e familia....


P.S.- um grande beijinho de parabéns à Mafalda Veiga, como diz "o meu amigo" Granger: a minha ídola!!

21.12.04

coisas felizes

entre amigo e amigo
jamais se afastam
coisas tão felizes
os instantâneos silêncios de certas formas
os protestos inocentes à nossa passagem
a natureza fortuita, dizia eu
imortal, dizias tu do vento?


Baldios, José Tolentino Mendonça



fotografia pedro gabriel montemor-o-novo' 2004

20.12.04

amelie




há imagens que nos trazem lembranças,
esta traz-me, das boas.
leva-me para um lugar onde eu existia pequenina e onde havia brincadeiras que eram tudo o que era importante.
Gosto deste filme.
E ver esta imagem é levar-me para dentro dele e encontrar as partes boas da vida. A amelie sabe as cores certas dos dias felizes.

desenho-te

Vejo na luz que agora é tua o desenho da perfeição que te contorna o corpo e te torna dela. Deixa-me ser eu a desenhar-te. O quarto tem cores escuras quentes, mas até podia não ter: a luz que lhe bate inclinada e caída é quente como o sol, é quente como o quarto quente das paredes quentes. Vejo-te na cama, deitado e perfeito, e desenho-te na luz quente do quarto quente. Desenho-te os contornos teus e meus, as linhas que te fazem existir perfeito. Desenho-te. És perfeito. A cama está usada, mas fica bem assim. O quarto é quente de paredes gastas, a janela é janela e é perfeita, deixa entrar a vida, a luz intacta: o tempo parou enquanto passou por nós, sentiste? amarelo e quente. No espaço que nos separa forte, olhas-me enquanto te ajeitas a ti mesmo, nesse olhar tens tudo e o desenho é nada. és tudo. perfeito como a linha que te desenha a imperfeição.

19.12.04

na noite de todos os anos

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembrarmos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.


David Mourão-Ferreira

18.12.04

Fomos

Seguimos sem medo. No fundo no fundo, estavamos cheios cheiinhos dele, mas insistíamos em dizer que não, que a vida é boa :não há que ter medo. Havia uma estrada escura e pressa. Havia pressa que ainda não era pressa de chegar porque ainda faltava uma pessoa connosco e essa pessoa era importante no medo onde nos dirigiamos. seguiamos sem medo. já iamos cheios e já tínhamos pressa de chegar. É bom quando nos dirigimos com pressa ao medo que queremos viver. A pessoa importante fazia falta no sitio onde éramos esperados. Levar uma pessoa connosco que é importante e que faz falta aos outros, traz-nos alguma importância, impessoal. Rasgámos a estrada, como se rasga uma estrada com pressa, as imagens de todos os dias a serem mais rápiadas agora, imagens a passar rápidas, a passar. O som a passar rápido. Como o flecha. Havia uma pessoa importante connosco. Isso tirava-nos uma parte do medo, multiplicava outra. No fundo, nunca tive medo. sempre soube que uma parte de mim era controlada por mim mesma. sempre soube que perto dessa parte de mim, havia espaço para onde me dirigia, à espera de ser preenchido, tinha de o ser e começava agora. nunca percebemos bem a razão do medo existir. chegámos e deixou de ser importante termos chegado atrasados. Deixámos de existir por bocadinhos.

Fomos onde o medo existia, corajosos. E afinal o espaço era já nosso, não o invadíamos como não dizíamos e sentíamos. Passámos a ser imagem de outras terras, de outras gentes. Ouvimos intactos memórias de outros, memórias que eram também nossas, dos sonhos mais sonhos. E os outros deixaram de ser outros para serem pessoas perto e perto. A pessoa importante, largou a importância à porta e lá dentro, fomos os mesmos que os outros. Lá dentro, dentro de uma sala que é sempre uma sala de aulas e não era ali. Era agora uma sala no meio de moçambique. Uma sala com cheiro a terra seca. as janelas, essas fazíam-nos lembrar as janelas de campos dos nossos, cheias da terra virgem onde o homem não tocou. E nós. Nós dentro das histórias que vêm dentro dos outros e ficam dentro bem dentro de nós, onde já existiam sem existirem. Quem falava, falava só com as emoções. não faltou nada. não, não faltou nada. Dentro dos nossos sonhos, havia lugar para viver assim, um ano assim. (O que mais me motiva são as gentes, os olhares de gentes sem nada e com tudo, gentes e gentes. sorrisos a serem sorrisos sinceros e podermos fazer melhor a alguem do que a nós mesmos.). Gostei de fechar os olhos e ficar a ouvir o testemunho. Gostei de partir daquela sala e mesmo dentro dela, ficar longe. so a ouvir existir. Já não havia medo, porque o medo já não tinha espaço para ser grande. Um dia, se chegar a algum lugar que não existe e for só eu sem coisas, e se chegar a torna-lo meu por instantes, vou querer dar tudo porque nesse dia não vou ter nada e sei que nesse dia vou ter um dia feliz. Ouvia dizerem que a vida lá é cheia de tudo o que não é material, ouvia contarem estorias de quando as pessoas não falam a mesma lingua e não precisam falar: trocam ervilhas por bolachas a sorrirem e isso já é a amizade que existe a existir. Ouvia o Natal no verão quente de chão quente e pessoas descalças, ouvia a vontade de enfeitar a vida como nas memórias que temos fundo de sempre, de um Natal dos nossos. Ouvia segredos de quem vive a dois, num amor que rebenta pelas costuras. cheios de cumplicidades a dois naquelas historias de terras perdidas. Ouvia falar de crianças caladas, obdiêntes, com medo do que vinha de gentes novas e tão diferentes. de crianças que sabiam o que é importante na vida porque não conheciam o outro lado. e da felicidade de umas pipocas existirer na vida delas. Sentía que ia um bocadinho mais além daquelas palavras. Acho que viajei por uns instantes, ninguém reparou que não estive la. Sentía-nos a todos iguais e isso levou o medo que existia. Sentía-nos de olhos fechados a ouvir a vida a ser, o que tinha sido, de novo. Comovidos. Senti que gostava de também eu escrever diários de dias assim. Ouvia estórias que queriam à força levar-me com elas, queriam à força existir dentro de mim. eram as estorias dos outros. E talvez seja esse o maior medo: sentir-nos capazes de também nós fazermos historias da mesma maneira que se fez ali, sem pressa. historias de vida. como estas que nos tocam assim, sem pedir licença. Não descobrimos a razão do medo existir. A pressa de chegar fez algum sentido no fim, soubessemos nós o quanto é fácil voar para estes lugares antes, e tínhamos rasgado o medo com mais pressa ainda. A pessoa importante sabía-o bem. Sabe bem o quanto é bom partilharmo-nos desta maneira. Sempre soube e eu nunca tinha reparado. Talvez por isso a sua facilidade em nos convencer do obvio, que é obvio: venham, vão ver que vai ser bom. Tens o espirito asul. Nao sei o que é o espirito asul, não sabíamos. se for parecido com um bocadinho do que senti para onde fui naquela sala, quero ir mais vezes, sem medos. e aprender o caminho do outro lado, o lado que me vai fazer contar as historias um dia. A estrada fez-se rápida onde já não havia pressa de chegar. Acho que fomos invadidos por uma pressa diferente: de viver. às vezes são precisos momentos destes, para voltar a ter a pressa que nos faz na nossa história, nestes lugares.




fotografia margarida delgado moçambique

17.12.04

o esforço e o esforço do esforço

Hoje não dormi o sono de ontem. estou muito cansada, muito. é estranho passar uma noite mais rapida que ela mesma. Esta noite, nem a vi. quando olhei pela janela ja era dia e já era hora. voou e nem a vi. como se não a vivesse. como se estivesse agora em falta com a noite. em divida. faltou qualquer coisa importante, qual ritual de boa noite. ficou a faltar o sono. o sono que agora chama devagarinho do quarto e da cama no quarto. o sono, como um amigo amigo, sempre presente. mas valeu a pena. todo o esforço quando é esforço e é esforço esforço vale a pena. Valeu. Nisso, não posso deixar de concordar com um dos mais fortes ideais budistas: Toda a reacção vem da acção (da nossa). É simples e do mais certo que há. "somos o fruto das nossas sementes."
Vou dormir, outra vez. (Tenho escrito sempre antes de ir dormir, será que me alguém me acha a maior dorminhoca?? sou um bocadinho.) isto dos projectos não nos dá folgas. entrego-me sempre àqueles momentos antes de ir dormir para escrever, acho-os num tempo certo, encontro-os por aí. Aqui vou eu. Até logo, até amanha, "boa noite".

Hoje sou o que o mundo quiser.



Estreio-me nas fotografias com os trocadilhos "simples" da adriana calcanhotto.

16.12.04

(re)inventarmo-nos

Aqueles que sonham de dia conhecem muitas coisas
que escapam àqueles que só sonham de noite.

Edgar Allan Poe

Natal dos hospitais

Acho que foi a primeira vez que vi 5 minutos do Natal dos Hospitais. Pelo contrário do que possa parecer, não tenho nada contra os senhores que estão ali a sofrer com todo o tipo de doenças. no ano passado estive em s.josé enquanto dava este programa, lembro-me perfeitamente. a minha avó não tinha paciência para estes programas, eu ria-me com ela nas nossas cumplicidades, não precisava dizer nada para eu ser a certeza de que a vida dela estava era cá fora. as colegas de quarto era só o que queriam ver, havia para lá uma luta... Lá descobri porque é que o programa se mantém de ano para ano. Acho que para quem está deitado numa cama de hospital durante muito tempo, qualquer animação diferente é boa.
Mas, porquê é que o natal dos hospitais é sempre tãããão deprimente, tãããão mal apresentado, tãããão feio em cenários, tãããão pouco apelativo e com taaaantos convidados que não interessam nem ao menino??!
Este ano houve uma excepção, os quadrilha. Aprendi a gostar de alguma maneira. E confesso que estes 5 minutos que vi pela primeira vez na vida, tiveram um culpado, chamado Bento. O Bento é pequenino, quase se esconde atrás da sua bateria. Mas consegui vê-lo. Pequenino e cheio de vontade. Valente. Atrás do seu sonho. O Bento. Dei-lhe um tempo meu e sei que estou agora menos em divida, as saudades ficaram um bocadinho mais pequenas.

azul

Amanha quero ter tempo para os outros, mais do que hoje, bem mais do que hoje. E tempo para escrever. Só trabalhos, e meus. Cansa.
vai-me saber tão bem dormir hoje. Estou cansada e não gosto de me deitar cansada sem ter conseguido acabar o trabalho que me cansou. A noite ja se apagou. há uma luz que entra pela janela, já natural, e que me diz que estou fora de horas, completamente fora de horas. Gosto de me deitar quando os outros acordam, gosto. De viver ao contrario- do mundo. De pensar nas pessoas que como eu invadem a madrugada, são silêncio, e gostam. Gosto tanto do amanhecer, das cores do amanhecer. Daquele azul que não é dia nem é noite e é as duas coisas- azul azul. Dos sons do amanhecer. E dos silêncios misturados entre eles em coro. Já me esqueci do cansaço. Azul. Vou sonhar azul azul.

15.12.04

Sabia de cor

Era noite. Aquele som entrava seguro a combater o que era frágil. Sabia-o de cor. Sabia de cor os acordes que eram dele e só dele, cada curva dos lugares que o faziam. O chão por onde me levava. Aquele som entrava seguro e a combater. Tornou-se dono de um espaço e alterou-o. Alterou as memórias que pairavam no ar desse espaço cheio de ar e som. O som, aquele. Entrou e adormeceu-me, como pózinhos mágicos. Não sei bem para onde fui, mas adormeci no som daquele som que me levou para dentro dele próprio. Pensei que o sabia de cor. Até conhecer as entrelinhas daquilo que o faz existir, a cada tempo. Era um lugar mágico, e talvez por isso, a memória não se quer lembrar, para não estragar. Andei por la a noite toda.

arquitectura

hoje prometi a um colega meu (pedro, é contigo.) que um dia ia falar aqui de arquitectura, para que ele não se sentisse tão "invasor" de assuntos que não conhece. Mas não vou falar de arquitectura. não me atrevo. e não sei falar de arquitectura. vou só dizer que há dias como hoje em que gosto mais de arquitectura do que outros. gosto da arquitectura escultórica, se é que ela existe. Gosto de espaços e de criar espaços quando eles ficam giros. Gosto de criar luz e luz e luz a bater na luz que bate na luz e nos planos e no vazio e nos buracos, gosto quando a luz passa a correr sem ser vista. odeio quando corre mal. detesto arquitectura quando corre mal. adoro ver os projectos dos outros, criticar, dar opiniões, sugestões. Para o meu, não. nada disso. Gosto, como hoje, quando as coisas até correm bem. Amanhã, possivelmente, se a minha professora me enviar o trabalho para as origens outra vez, vou vir desfeita em caquinhos partidos e vou chorar e vou pensar o que é que eu ainda estou a fazer neste curso, vou pensar que a minha vida não está no caminho certo, que estou a perder tempo, enfim, um drama, uma tragédia. (um horror)digna de uma noticia importante na TVi. Se, pelo contrario, a professora me disser maravilhas do projecto (sonha Pipa...) eu vou sentir pela primeira vez que não estou a gastar trezentos euros por mês (nem me atrevo a fazer as contas ao ano...) em vão. Por falar em vão: Fiquei a saber este ano que os engenheiros chamam vão ao espaço que vai de um pilar a outro. interessante, não é? é por estas e por outras que eu não falo de arquitectura no meu blog. nunca.

14.12.04

Esquadros

Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome dos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(Quem é ela? Quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde
Transito entre dois lados, de um lado
Eu gosto de opostos
Expondo meu modo, me mostro
Eu canto para quem?
Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria meu cansaço?
Meu amor, cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado


Adriana Calcanhotto

já passou.

Hoje, estive triste. Já passou. Quando estou triste lembro-me da minha mãe. sempre. das mãos da minha mãe na minha cabeça, desse movimento que sei de cor e me traz todas as certezas como se nada de mais certo existisse para além daquele gesto. desde sempre. um dia vou querer escrever aqui sobre essa coisa de ser filha. Hoje, quando vi a minha mãe, não precisei falar para que ela repetisse o gesto mais uma vez. em mim, num espaço curto que somos nós. não foram precisas palavras. nunca são. e no momento daquele gesto, nada mais fica. gostava de o ter para sempre.