10.12.04

entregou-se

há um barulho que as coisas fazem a observar-nos dentro do escuro do silêncio da noite. ela quebrou-o. ouvia repetidamente a música que mais gostava da ella fitzgerald, uma versão em dueto com louis armstrong de "dream a little dream of me"...
(não percebo nada de música, esta é das boas não é?)
Tem aquela parte que ela gosta e sabe que gosta, de a transportar. gosta de ser transportada assim, a meio da noite, enquanto rouba ao silêncio uns segundos de sonhos. foi levada para outra historia, outro tempo, outro lugar. viajavam por ela tons escuros e fumo. os mesmos que tocava com os dedos trémulos nas paredes da casa onde chegava. via encarnado. preto. castanho. castanhos. sentia o calor das vidas que a enchiam por dentro. entravam-lhe na pele os sons do calor das vidas que a enchiam por dentro. os sons que a dominavam, harmónicos. serenos. doces. boémios. os sons do passado que não viveu, que não ouviu. entregou-se. enquanto tocava nas paredes trémulas, sentia calor. desceu as escadas. a música. lá em baixo, um olhar. os sons. olhares. o calor na pele a queimar por dentro de vontade, fumo. cada passo produzia medo. sentou-se mulher. fumou. estava no som, na música, estava por dentro dos acordes que estavam por dentro das vozes, doces e doces, por dentro do lugar que ela criou, por dentro da música, dentro e dentro, fundo.
acordou de novo no silêncio cumplice da noite. trocou um ultimo olhar com as coisas do silêncio. dormiu.

9.12.04

lembrei-me da aquarela!

Aquarela

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Com o lápis em torno da mão imito uma luva
E se faço chover com dois riscos tem um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cair num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando, contornando a imensa curva norte-sul
Vou com ela, viajando Havaí, Pequim, Instanbul
Pinto um barco a vela branco navegando é tanto céu e mar num beijo azul

Entre as nuvens, vem surgindo um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta, colorindo com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo serendo e lindo e se a gente quiser
Ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida
De uma América à outra eu consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço um mundo

Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar
Não tem tempo, nem piedade, nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda a nossa vida
E depois com vida ___ ou chorar

Nessa estrada, não nos cabe conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe ao certo onde vai dar

Vamos todos juntos numa passarela de uma aquarela
Que um dia enfim descolorirá


Toquinho e Vinícius de Morais

infância ameaçada

Se tivesse já descoberto como é que se põe fotografias num blog, este post seria só uma fotografia. escolhia o sorriso de uma criança. um qualquer. as crianças têm a essência do que é puro, não há sorriso que não traga estampado o sentimento.
Hoje foi lançado um novo relatório da Unicef, mais uma vez assustador. é nestes momentos que penso no meu egoísmo quando os meus problemas se põe à frente destas causas. não há morte mais triste do que a de uma criança. (e à fome?!) todos os dias morrem millhares de crianças no mundo-assim. saber disto é um começo. o resto vem de cada um. e eu gostava tanto de poder ajudar. Hoje apetecia-me, só, estar lá a dar-lhes colo. aos que estão sozinhos e com frio, com fome, entre guerras. as guerras que nem eles, nem nós, sabemos o porquê de existirem.

“... to me, a world fit for children is when everyone begins to find the child in them. I am a child...everyone has definitely been children before... a child sees no colour, race or religion! … if the world was like a child... that world would definitely be a wonderful place to live, a place fit for all humanity to live!!...” girl, 16, Malaysia http://www.unicef.org/sowc05/english/index.html

"Don't Worry, Be Happy!"

Bem... que bom ter visitas!... estava tão reticente em partilhar este blog. (experimentem só fazer um, é um vicio!) Maggs, as tuas palavras são a essência, sempre e sempre. Joao e Té, um must! Obrigadinha. Cheguei agora de um jantar animado de familia. entre as partes que vou guardando na memória de sempre, ultimamente tenho tirado "fotografias" de quase todos os momentos com o meu avô. Razões obvias. Parece que nele se duplicou qualquer coisa. incluindo a fragilidade. são doces as fotografias, tons neutros, com cheiros de abraços fraternos. No carro, quando iamos para o jantar, tocava uma música que me fez pensar (a não pensar), que tudo ficará bem... "Listen to what I say in your life inspect some trouble When you worry you make it double (...)"

8.12.04

dias

Têm sido assim os meus dias. Nem os vejo passar. Há dias que passam a correr pelos dias. Há dias que passam a correr pelas horas. Há horas em que os minutos são os segundos que correm sem parar para descansar. Há também os segundos que param, em mim. Que ficam meus. Há o tempo que é meu. que não tenho tido. Faz pensar pouco viver com os segundos a correrem, mais rápidos do que o tempo... E pensar pouco é bom! Nestes dias que correm, pensar pouco é bom...

Mifá

Há um lugar onde esta música me leva. Chama-se estrada. Algures entre Lisboa e Braga. mais do que um lugar, leva-me a cores e a gentes. (As minha gentes!) Não a conhecia senão quando a Mafalda Veiga a cantou em concertos. Aqueles onde o Jorge Palma urbano e errante se mistorou com a voz doce e quente da Mafalda. Há a estrada que nos foge e é tão nossa, a paisagem efémera, há as viagens pelas amizades que se constroem nestas cumplicidades. Mifá. Sei que nunca me vou esquecer do cheiro daquela viagem, das cores e de nós mergulhados na música, repetidamente. da Té, repetidamente. Mifá. de Braga que se molda aos nossos sentidos e se torna no lugar perfeito.

"Mifá
É de um comboio que eu te escrevo,
Mifá
São os teus olhos que eu levo,
Mifá
Dentro dos meus
Vê lá tu
Mifá

O amor nem sempre é brincadeira,
Mifá
Quer a gente queira ou não queira,
Mifá
As coisas são mesmo assim

E toda esta conversa
É só por tu teres vindo comigo
Por termos conseguido chegar juntos ao ninho
Por esses momentos em que eu

Não fui sózinho
Mas depois foi a bagagem
E o inevitável adeus do caminho,
Mifá
Tem cuidado contigo
Mifá

Não vou soluçar por ti,
Mifá
Mas tenho um espaço vazio aqui,
Mifá
No meu coração
Vê lá tu
Mifá

Solamente una
Dói se pensarmos que
Isto é o fim
Mas resta sempre
Alguma coisa

E toda esta conversa
É só por tu teres vindo comigo
Por termos conseguido chegar juntos ao ninho
Por esses momentos em que eu

Não fui sózinho
Mas depois foi a bagagem
E o inevitável adeus do caminho,
Mifá
Tem cuidado contigo
E toda esta conversa

É só por tu teres vindo comigo
Por termos conseguido chegar juntos ao ninho
Por esses momentos em que eu
Não fui sózinho
Mas depois foi a bagagem
E o inevitável adeus do caminho,
Mifá
Tem cuidado contigo"

Jorge Palma

o tio

Porque é que quando estou a trabalhar de madrugada e não estou a gostar do trabalho fico sempre com um sono impossivel de aguentar?...
É daquelas perguntas que só nos ocorrem no silêncio da noite... sem querer: como é que o tio patinhas é tio se não tem irmãos, nem é casado??!

vou dormir.

7.12.04

esperar-te

"não me arrependo das horas que perdi a esperar-te quando ainda havia a esperança. a esperança que havia ainda quando, a esperar-te, perdi horas de que não me arrependo.

um instante na memória de chegares é mais valioso do que jardins. do que montanhas, do que anos de tempo.

arrependo-me de ficar ao sol, se sorrir, de esquecer que devagar passam os dias. os dias passam devagar, esquecendo-se de sorrir de sorrir ao sol e de ficar onde me arrependo."


José Luís Peixoto
in "uma casa na escuridão"


Este blog existe porque, entre outras influências, foi-me nascendo uma vontade de escrever e de escrever aqui.
Não sei ainda se vou ser lida, se vou partilhar este espaço.
Criei um blog, chamei-lhe todos os lugares. Porque me fala já de todos e de cada lugar, onde quer que esteja, o que quer que seja. Ontem, dia 6 de dezembro, fez 6 meses de uma data que me marcou intensamente. Uma dor que não conhecia. Num dia em que acordei feliz em juntar-me aos milhares e ver de perto o "deus" sting. Quis escrever sobre isso. Não sabia onde, nem como, nem para onde. Queria escrever à minha avó. espero-a, como no excerto acima, espero-a na esquina de todos os lugares, nos lugares de todos os dias. Queria dizer-lhe que me faz a falta da vida. Que me lembro de si todos os dias, avó. e que 6 meses sem si custaram a passar. mas o importante, a parte boa do que fica, a vida que me ensinou, a vida em sorrisos, e os sorrisos da vida, em qualquer parte de nós. avó, ate sempre.

Hoje acordei em Caetano...

Menino do Rio
Calor que provoca arrepio
Dragão tatuado no braço
Calção, corpo aberto no espaço
Coração
De eterno flerte
Adoro ver-te
Menino vadio
Tensão flutuante do Rio
Eu canto pra Deus proteger-te
O Havaí seja aqui
Tudo o que sonhares
Todos os lugares
As ondas dos mares
Pois quando eu te vejo eu desejo o teu desejo
Menino do Rio
Calor que provoca arrepio
Toma esta canção como um beijo